sábado, 15 de janeiro de 2011

O Exterminador de Ratos

Ratos, grandes ratos pardos e rabudos tinham ocupado o espaço sob um telhadinho que cobria uma laje num dos cômodos lá de casa.

A presença incômoda, os atrevimentos crescentes, os prejuízos, a algazarra que faziam namorando, as reclamações da patroa e dos meninos; tudo foi me chateando e me obrigando a dar um fim neles.







Então eu parti com a simplicidade dos inexperientes; com a afoiteza do que despreza o adversário; com o menosprezo imperdoável dos que se superestimam e desconhecem o poderio do inimigo.

Parti com um cabo de vassoura em direção ao telhadinho e comecei a cutucar e levantar telhas na esperança de ver ratos voarem apavorados e às tontas para que os meninos e o cachorro os matassem.

Mas qual, onde é que se meteram?... Sumiram como por encanto... Aliás, sumiram com exceção de um adolescente que, de repente se projetou de um vão de telha e caiu no meio do patiozinho cimentado da área.

E aí a balbúrdia se instalou; já que meninos, adultos, cães e gatos; todos ao mesmo tempo, partiram alucinados p’rá cima do inimigo tão esperado e que, àquela altura, já me parecia apenas um pobre rato acuado.

Mas, o que dizer àqueles vândalos, àqueles revoltados justiceiros que não só queriam o inimigo morto, como queriam, cada um, matá-lo pessoalmente?...

O ratinho, com dois olhinhos assustados e protusos, não fez qualquer análise das razões do inimigo e nem sequer quis medir-lhe o poder de destruição. Toda a luta, todo heroísmo, toda resistência possível se resumia em sobreviver. E, sobreviver era não ser pego de forma alguma, para o que valia morder, arranhar, correr em ziguezagues, subir pelas paredes e até pelas pernas dos justiceiros.

Daí, minha casa quase veio abaixo. De um lado: pauladas, gritos, chutes, latidos, topadas, confusão infernal. Do outro: dribles rápidos, idas e vindas incontáveis, guinchos, desaparecimentos momentâneos e mil outros truques de quem tem milhares de anos de tradição neste tipo de luta.

A luta seria tremendamente desigual em favor do rato, não fosse pelo fato de ele não ter como sair do campo de batalha e, em conseqüência, ir tendo suas forças paulatinamente minadas já que lutava sozinho e sem trégua, enquanto que ao inimigo era permitido o revezamento, reforços, troca de vassoura quebrada por outra inteira e, muitas outras vantagens. Mas, com uns quinze minutos de embate, eu, vendo a depredação que faziam nas paredes, portas e utensílios domésticos; sem que ninguém suspeitasse, desertei de nossas colunas e resolvi apoiar a causa da minoria oprimida, que naquele momento era o fatigado ratinho.

No exato instante em que o dito, minoria oprimida, vinha alucinado para dar a centésima topada com a porta, eu, subitamente a abri, como se fosse entrar para ajudar os opressores e, nisso o rato passou como uma bala em ricochete e desapareceu pelo quintal afora.

Desaprovada aquela conduta, parti para inúmeras outras:

Isca envenenada... Nada!

Ratoeira infalível... Horrível!

Felinos audazes... Ineficazes!

Gás hilariante... Hilariante!

Gás Lacrimogêneo, Detefon, bombas, fumaça, vigília cívica...

Fracasso total.

Passados uns dias, estava eu pensativo e desanimado à porta de minha casa quando passa um homem aí de uns cinqüenta e cinco para sessenta anos, curtido de sol, um pouco sujo e com umas botinas já meio corrompidas pelo uso. Bem, a descrição do homem não importa muito; o fato é que ele trazia um saco nas costas e veio exatíssimamente me perguntar se eu não estaria precisando de dar combate a ratos, que era o que ele sabia fazer de maneira eficaz, silenciosa e módica.

Vocês hão de crer que eu não fiz qualquer pergunta? Tal era o meu desespero para ficar livre dos ratos. Não perguntei sequer o que é que ele trazia naquele saco. Apenas combinamos que no dia seguinte estaríamos fora e ele, devidamente informado dos detalhes, ficava com a casa à disposição para o tal extermínio e com ele, ficaria apenas o nosso guarda-noite com ordens expressas de cuidar da casa mas, não interferir no trabalho dele.

Partimos cedo, cheios de esperanças, passamos todo o dia fora e só retornamos boca-da-noite, curiosíssimos e desconfiados.

Ao chegar, encontrei o homem de papo como o guarda, na maior despreocupação do mundo.

- E os ratos? Perguntei.

- Ah! Tem mais rato do que eu pensei e vou precisar de mais tempo.

- E então, como é que ficamos, o senhor volta amanhã para terminar o serviço?

- Num tem jeito não patrão, eu só posso sair com o serviço terminado.

- Mas, e nós?... Há algum inconveniente em dormirmos na casa?

- Bão... Tendo medo de cobra tem.

- Cobras? Que cobras?...

- As cobras que tão pegando os ratos.

- Mas o senhor pôs cobras na minha casa para pegar ratos?

- Pus, mas quando os ratos acabarem eu chamo as cobras e elas voltam p’ro saco.

- Pois o senhor retire essas cobras imediatamente de minha casa antes que eu tome uma providência.

- Num adianta patrão, elas só obedecem quando os ratos acabam.

Nessas alturas minha mulher, as crianças e até o cachorro que andaram ouvindo parte da conversa, já tinham se encarapitado no carro e se recusavam até por os pés no chão, com medo das tais de cobras; caninanas como o homem me esclareceu.



O jeito foi encarar um hotelzinho sem estrelas.

Foram seis dias de hotel, mas que valeram apena. Não sobrou um único rato na casa, não se destruiu uma só telha; o homem saiu de lá com um saco cheio de cobras nutridas e felizes e não quis nem cobrar pelo serviço.

É importante salientar que as tais caninanas deixaram por lá um tal almíscar de cobra, que rato nenhum nunca mais se aventurou sequer a se aproximar lá de casa nem para comer queijo.

O homem misterioso sumiu, mas ouço dizer que ele é uma espécie de benzedor e mora ali pelas proximidades da barra do Antas com o Corumbá, assim, se alguém quiser usufruir do método, estou pronto a ajudar a procurá-lo.

05.8.1989

Rilmar