domingo, 17 de outubro de 2010

Dia do Professor (comentário feito no Blog Brasil Acadêmico)

Rilmar disse...

Sabe aquela fala de Saramago:Todo mundo é escritor, só que poucos escrevem?!...

É, a meu ver, o que se poderia dizer sobre Professores.







Os que decidem fazer de suas vidas o sacerdócio de ensinar, de ter como missão aprimorar indivíduos, preparar pessoas para a vida, tolerar rebeldes, suportar engraçadinhos, decifrar mentes que precisam de abordagens especiais para que aprendam, diagnosticar deficiências para nivelar cada um com o todo, fazer tudo com tanto desvelo, tanta doação, tanta compreensão; que ao fim de cada etapa haja um grupo melhor e com mais conteúdo de conhecimentos para o trabalho, a vida, para si mesmo e, talvez para estar apto a continuar aprendendo.

Essa é sua gloriosa e beatíssima missão.

Eterna e indispensável.

A recompensa, além do dever cumprido;vem, às vezes, da própria turma que o cerca, ao final do curso e agradece com palavras, com flores, com abraços. A recompensa vem, às vezes, de telegramas comunicando êxitos obtidos e agradecendo, vem também de ex-alunos que, pelo resto da vida, ao encontrá-los os reconhecem e cumprimentam com uma saudação calorosa: Hei PROFESSOR como vai? É sempre um prazer revê-lo!

Mestres, Mestres... Vocês que nos ensinaram tudo; ensinem-nos a sentir e externar nossa gratidão para com vocês. Adivinhem, por trás de nossa vaidade e do nosso egocentrismo, o alicerce que vocês puseram sob nossos pés

e no qual nos apoiamos.

Tenham certeza disso. Orgulhem-se. Não se arrependam nunca do bem que derramaram sobre nós.

Deus lhes pague. Sou eternamente grato

Rilmar

sexta-feira, 8 de outubro de 2010

Couro de Lobisomem

(continuação de Rastro de Cobra)



A tarde era réstia de luz
No horizonte sem nome
Rastro de cobra eu vi,
E couro de Lobisomem?

Antes de chegar na ponte
Do Corguinho de água quente
Reparei numa casinha
Lá pros lados do poente

Vi um estranho estandarte
A enfeitar-lhe a frente
Um couro grande, esquisito
Esticado e imponente

Couro negro e cabeludo
De fios grossos revestido,
Não era couro de bode
Nem de bicho conhecido

Pensei em couro de onça
Na resposta da questão
Anta, urso, burro, zebra;
Nenhuma era a solução

Curioso como sou
Naquela casa cheguei
Bati de leve na porta
E a resposta esperei

Sempre analisando o couro,
Pertinho e estando a sós
Fui reparando detalhes-
Até que ouvi uma voz

-Vá entrando, a casa é nossa,
Empurre a porta; bem vindo
Vem dividir a solidão
Que sozinho estou sentindo

-Eu passando por aqui
Nesse restinho de dia
Tendo sede, vim pedir
Um caneco de água fria

-Pois bateu na porta certa
Veio a uma casa amiga
Conversa de copo d’água
É uma desculpa antiga

-Se realmente tem sede
Beba água à vontade
Mas se está curioso
Venha saber a verdade

-Você viu aquele couro
Esticado ali na frente?
É de um animal que matei
Bicho muito diferente

Sete dias e sete noites
Setenta terços rezei,
Pra desencantar o bicho,
Depois disso eu o matei

É uma mistura encantada
De cachorro, lobo e homem
O couro que você viu
É couro de lobisomem

De lobisomem legítimo
Que uiva e mata de medo
Mas não pôde com as rezas
E a firmeza de meu dedo

Na mira da carabina
O monstro sequer grunhiu
Reza, coragem e chumbo
E o bicho sucumbiu

- O amigo me desculpe
Mas não sou bobo nem nada
Que couro de lobisomem
Isso é alguma piada?

Lobisomem é uma lenda
Ou uma raça em extinção
Quem matar um bicho desses
Corre risco de prisão

- Matei esse e mato mais
Sou valente e sem temores
Sou chumbo grosso, sou fera
Sou o rei dos caçadores

- É brincadeira eu sei
Não se mata uma lenda
Mas se matou de verdade
Faça com que eu entenda

-É muito fácil provar
O bicho está todo aí
Examine cada peça
Coloque o pingo no i

Aqui está a cabeça,
Preste atenção nestes dentes,
Nos fundos dentes de lobo,
Humanos são os da frente

Observe a carne escura
Que quanto mais se tempera
Menos cheira a tempero
Mais fede a carne de fera

E essas patas imensas,
De que essas patas são?
Parecem patas de lobo
Parecem patas de cão!

Olhando agora o couro,
Mais preto que marchetado,
Tem um odor bem estranho,
Cheira a cachorro molhado.

Repare nessas orelhas
De talhe reto, incrível
São orelhas de morcego?
Ou de um animal terrível?

Cheirei, ouvi, reparei
Resisti enquanto pude
Mas chega um certo momento
Em que a evidência ilude.

Convencido que o lobisomem
Estava morto e picado
A carne em umas gamelas
E o couro bem esticado.

Tive raiva do tal homem
E parti para a cidade
Em busca do delegado
Pra dizer toda a verdade
Do morticínio da lenda
Da grande atrocidade

Encontrei o delegado
Bebericando na venda
Fui logo dizendo a ele
Seu Roberto me atenda
E venha prender um monstro
Um assassino de lenda

O delegado de fogo
Ficou logo azuretado
Contou as balas do trinta
Enquanto eu olhava calado

Depois levantou do banco
Fazendo cara de mau
Disse: Você vai comigo;
Você também Bate pau

E para documentar
Em meio àquele alvoroço
Pegando a sua Nikon
Pendurou no meu pescoço.

Em direção ao casebre
Seguimos rapidamente
Todos em cima de um jipe
Velho, cambembe e rangente;
Logo chegamos na choça
Pois o Jipe era valente

Queria que vocês vissem
A cara do tal caçador,
Vendo aquela comitiva
Perdeu todo o seu valor,
Ficou branco como vela
Quase teve um estupor.

O delegado chegando
Viu logo o couro esticado
Cheirou e foi confirmando
- Cheira a cachorro molhado;

Entrando viu as gamelas
Com a carne fedorenta
Examinou com os olhos
Com a língua e com as ventas;

Examinou a cabeça
Com a estranha dentaria,
Quanto mais atenção dava
Mais o caçador tremia.

O caçador gaguejando
Explicar bem que tentou
Esse couro é de búfalo
Um fazendeiro mandou
De longe para que eu curtisse
E muito recomendou

-A carne que tanto fede
Não é uma carne rara
Tem cheiro forte por ser
Carne de uma capivara

-E a cabeça tão grande
Guardei-a para exibi-la,
Curtida e trabalhada,
É de um cachorro fila

-Teve as orelhas aparadas
Por uma moda mal-sã,
São orelhas amorcegadas
Como as do Bat-man

-O delegado sossegue
Que o malfeito é aparente
Eu não matei lobo-homem
Juro que sou inocente.

Eu fui ficando sem-graça
Vendo o homem se explicar
Mas o delegado estava
Longe de acreditar.

O caçador se esmerava,
Suando frio o coitado,
O delegado ouvia
Sempre mais desconfiado

Por fim veio a decisão
- Fica lavrado o flagrante
- Bate Pau cumpra a lei
Bote em cana o meliante

Tire amostras de tudo
E em caixas de isopor
Acondicione no gelo
Para estudo posterior

Leve o couro conosco
Para a delegacia
Quero o parecer do povo
Que nesse a gente confia
A questão é muito séria
Pois envolve ecologia

Em tudo o delegado
Foi prontamente acatado
O couro ficou exposto
E o meliante trancado
As caixas foram enviadas
Para um centro adiantado

Estudando as tais peças
Muito tempo se consome;
Aguarda preso na cela
Aquele valente homem;
E quem examina o couro
Jura que é de lobisomem

Testemunha da verdade
Não aumentei um só ponto
Do que não vi nem provei
Nunca relato nem conto

FIM
Rilmar José Gomes
27/12/1991

domingo, 26 de setembro de 2010

Rastro de Cobra - (Literat. Cordel)

Foi numa tarde de verão,
Era um silêncio profundo,
O que aconteceu comigo
Só hoje revelo ao mundo.



“Nunca vi rastro de cobra
Nem couro de lobisome”
Cantor que isso afirmou
Tentava fazer o nome

Se vivesse um pouco mais
Se vivenciasse o mundo
Descobriria bem cedo
Que não pesquisou a fundo

Eu que pouco viajei,
Sem que a memória falhe,
Afirmo que muito vi
Pois reparei no detalhe

Sei andar devagarinho
Olhando com zelo e arte
O conjunto como um todo
Mas atento a cada parte

Olho, escuto, cheiro e toco
Provo se for a questão
Comparo tudo na mente
P’ra formar uma opinião

E no silêncio da tarde
Eu já fora da cidade
Reparei num ancião
Cheio de excentricidade

O homem se abaixava
E fotografava o chão,
Clique que clique e andava
P’ruma nova posição

Ajude-me nossa senhora,
Santa mãe da piedade,
Não peca quem quer saber
Quem tem curiosidade.

E foi rezando baixinho
Que me aproximei do tal,
Querendo puxar conversa,
Mas me saí muito mal

O gringo me ignorou,
Fazendo que não me viu,
Botando a máquina no ombro
Entrou no jipe e sumiu

O que foi que ele viu?
Que coisa tão importante,
Esse homem registrava
De modo tão intrigante?

Comecei olhar o chão
Com atenção redobrada
Para ver se descobria
Resposta para a charada

Em dado momento notei
Sutis, leves,indefinidos
Impressos na areia fina,
Uns sulcos rasos, compridos

Logo adiante sumiam
Numa fatia de relva
Depois surgiam mais nítidos
Indo em direção à selva;

Selva não, uma matinha
Na beira do ribeirão
Mata que eu conhecia
Como a palma de minha mão

E os sinais misteriosos
Não se perderam de fato
Porque sofreram um desvio
E não entraram no mato

Na areia, embora leves
Poderiam ser seguidos
Ainda mais se eu aplicasse
Nisso meu sexto sentido

E fui seguindo os sulquinhos
Até que, subitamente,
Eles desapareceram
Sem um motivo aparente.

Um toco, uma pedra e uma moita
Isso só e nada mais;
De uma dessas três coisas
O mistério estaria atrás

O mistério era uma cobra
Que também me espreitava
Enquanto eu a procurava,
Ela, por certo, pensava:

O que quer esse janota
Andando atrás de mim
Ainda tenho veneno
E posso lhe dar um fim

Estou um pouco pesada
Acho que exagerei
Engolindo aquele sapo
Que na lagoa encontrei.

Eu que sempre muito leve
Não deixo rastro no chão
Com um sapo na barriga
Me arrasto como um vagão.

Deixando o rastro na areia
Fui deveras imprudente
Mas quem segue rastro de cobra
No fim encontra serpente

E de minhas experiências
Uma certeza me sobra
Uma coisa é seguir o rastro,
Outra é enfrentar a cobra

O janota é atrevido
Atrevido e persistente
Mas se chegar nesta moita,
Pronto lhe cravo os dentes

A cobra conjecturava
E eu também refletia
Tenho que ter muito cuidado
Pois já está no fim do dia

E o sol nessas alturas
Já não clareia o bastante
Vou olhar naquela moita
Mas me mantendo distante.

Foi assim que examinei
A pedra e também o toco
A moita eu olhei de longe
Porque não sou nenhum louco.

Mesmo olhando de longe
Eu consegui vislumbrar
A cobra de bote armado
Pronta para me pegar;

Eu olhava para a cobra
Ela olhava para mim;
Ficamos naquele flerte
Por um instante sem fim.

A serpente ardilosa
Tomou uma decisão
Exibiu-me a barriga
Fazendo uma contorção

Ao ver tamanha barriga
Naquela cobra impávida
Eu de pronto concluí
Esta cobra está grávida

Se cobras não engravidam
É problema da ciência
Por mim estou satisfeito
E em paz com a consciência

Fica, pois aí gestante,
Está desfeito o mistério
Seja feliz no seu parto
E também no puerpério.

E dali me afastei
De volta para a cidade
Feliz por minha vitória
Nesta busca da verdade

A tarde era réstia de luz
No horizonte sem nome
Rastro de cobra eu vi,
E couro de Lobisomem?

Rilmar- 1991
(a seguir: Couro de Lobisomem)

domingo, 22 de agosto de 2010

Meu pai, perfeito como eu

Há algum tempo, aos noventa e três anos, ele partiu para uma viagem sem volta ao encontro de minha mãe, com destino à eternidade.


Tão agarrado à vida, uma vida que lhe foi tão árdua, tão sofrida, tão cheia de altos e baixos.
Tão frágil, tão submisso, tão entregue; ele que foi na vida fortaleza, disciplina, hombridade, sistemático, liderança e inteligência.

Não morreu nos meus braços como talvez fosse a vontade dele, morreu ao lado de uma minha irmã que lhe deu mais amor do que qualquer um de seus filhos que são muitos. Findou-se como uma chama que vai se enfraquecendo lentamente através dos anos derradeiros até que, em certo momento, bruxuleia, treme, perde lentamente o restinho de fulgor e finalmente se extingue e parte na direção do infinito.

Ao seu lado estava ela, a filha que mais sofreu sua perda, a que deixava tudo para acudi-lo, para assisti-lo com infinita paciência, dedicação e eficiência. Foi talvez por isso que Deus a escolheu para o angustiante momento do desenlace.

Só Deus sabe o porquê de suas decisões!

Não podendo medir seus temores, seus horrores, suas fraquezas ou sua fortaleza; não posso analisá-lo, pai, sem ser injusto e impreciso.

Para mim você sempre foi e será um forte; um esteio de minha existência. Um pai enérgico, capaz de corrigir e até ser injusto, mas que sempre me norteou e, com maior ou menor punição era o muro onde meus erros esbarravam e se desfaziam. Acertadas as contas com você, eu estava certo com o mundo. Você cuidava de minha vida.

Você foi estruturado num mundo de ascetas. De muito fazer, pouco ter, obediência silente e respeitosa, de achar tudo justo.

O rigor com que a vida o tratou, as asperezas de seus caminhos, os intransponíveis obstáculos diante do menino que não podia se desviar nem desistir, não tinham como não marcar-lhe a alma profundamente.

O código de ética da sociedade de sua época e do interior de Goiás; as tradições de família que impunham uma hierarquia forte, dura, imutável e vigilante.

O Deus da época que vigiava e punia a todo instante e em qualquer lugar; as assombrações que aterrorizavam; os demônios que cobravam sua parte em qualquer prazer experimentado; tudo oprimia e enrijecia as gentes.

Sua Inteligência invejável devia levá-lo a muitas interpretações de tudo que o cercava; de tudo o que lhe impingiam, mas não havia parâmetros alcançáveis, mundos para serem comparados visto que a comunicação era exígua: nem TV, nem rádio, raríssimos jornais. Nas escolas ainda não se discutia a vida, mas tão somente se decoravam coisas; meio de transporte rudimentar e vagaroso eram o carro de bois, a carroça e o cavalo. Os horizontes eram, assim, muito limitados e de difícil transposição.

Viver do próprio trabalho, embora os adultos não reconhecessem, era desde o momento em que as forças já dessem para fazer alguma coisa e a mente capacitasse a obedecer.

Uma criança de oito anos, ou menos, já trabalhava do nascer ao por do sol.

Punições vinham a toda hora.

Elogios só para o trabalho e a obediência cega.

Opressão para idéias, palpites e criatividade.

O homem tinha que ser macho a toda prova, mas sexo era indecência, pecado, falta de caráter.

Sim, meu pai, esse era o seu mundo com suas regras.

Aos quatorze anos você viajava sozinho montado em um cavalo indo de cidade em cidade levando correspondências, fazendo entregas. Viagens com chuva ou sol, frio ou calor, noites escuras como breu e dias de chuva ou de sol, mas sempre com muito cansaço e grande solidão.

Imagino você num mundo cheio de fantasmas, capetas, onças, lobos, e mesmo pequenos animais que sem serem perigosos surgiam na noite, de repente, causando grandes sustos. O cavalo refugava, o coração dava saltos no peito; a mente chamava desesperada algum santo do céu estrelado; mas o medo era engolido e você seguia em frente, impregnado de cansaço, animado pela vontade de chegar ao pouso, no mais das vezes apenas um rancho sem ninguém dentro e onde barbeiros e morcegos esperavam impacientes.

Mais do que ser forte, corajoso e tenaz; era necessário ser imbatível e ter orgulho do que fazia.

Mais tarde, com menos de vinte anos, você comandava tropas levando bois de Palmeiras a Barretos; setecentos quilômetros, ou mais ; percorridos à cavalo, lidando com gente, disciplinando, administrando e cuidando de tudo para manter o grupo em harmonia e fazer a entrega na data marcada.

Você conseguia porque era exemplo em sua conduta obstinada e rígida, mais consigo mesmo, do que com o restante da tropa.

Depois veio o exército no tempo da ditadura Vargas, onde pátria, hierarquia, disciplina e honra vinham antes de tudo. Pátria era algo concreto que não dependia de se impregnar o indivíduo da necessidade de amá-la. Os outro itens eram pregados, ditos, repetidos e exigidos até que se tornassem parte do pensamento, da conduta, da própria vida.

Então, um dia, surgiu minha mãe com sua doçura, sua beleza, sua meiguice e o encantou. Também ela encantou-se com sua força, seu porte físico, seus olhos azuis. Minha mãe era a ternura, a doçura que precisava de uma mão forte para ampará-la. Você, o homem enrijecido pelo tempo e a vida, precisava da afabilidade e a ternura daquela morena de cabelos negros e ondulados e de sorriso encantador e que além de bela e graciosa, era inteligente e culta.

Dessa união nasceram onze filhos entre homens e mulheres, dos quais nove sobreviveram. Não faço a menor idéia de como seria possível criar tão numerosa prole nos dias de hoje e menos ainda naqueles dias.

Foram muitos os percalços, os momentos felizes e os de dificuldade e até de desespero.

No dia em que minha mãe morreu, o mundo ruiu. Ruiu para mim, para todas as pessoas da casa e ruiu para você. Esse verbo é muito mais suave quando o lemos do que quando o vivemos. Cada um de nós foi destruído social e psiquicamente. Você também foi. Não há como qualquer um de nós aquilatar o quanto essa falta foi capaz de destroçar o coração e a alma de cada um; de infelicitar irremediavelmente pelo resto da existência, cada um de nós; de fragilizar, de deprimir, de desanimar, de desesperar, de desamparar.

Cinqüenta anos se passaram e eu ainda não voltei a ser o mesmo. Não posso, pois, exigir isso de ninguém.

Agora que você partiu, e passado algum tempo, parei para essa reflexão e gostaria de ter-lhe dito muito mais vezes que o amei e amo com o amor do filho que tudo fez para brilhar, para merecer sua admiração e seu orgulho. Depois que vivi e fui intensamente testado pela vida; sofri e vi pessoas sofrerem, ganhei, perdi, tive êxitos e falhas; depois de um amadurecimento ocorrido a duríssimas penas; sou capaz de imaginar o quanto a vida foi dura com você.

Quero guardar de nós dois, na lembrança, os melhores momentos nossos. As pescarias, os casos que você contava de sua vida, os bons momentos de você com minha mãe e nós; as vezes em que eu o visitava na sua casinha, já na sua viuvez, a euforia que vivi ao enviar-lhe o telegrama dizendo que eu passara no vestibular de medicina e o dia em que você foi ao baile de minha formatura numa noite fria na beira do lago do Paranoá.

Talvez Deus exista e conceda-nos um reencontro numa outra dimensão onde com minha mãe e todos nossos entes queridos conheçamos a convivência plena onde o amor se expresse pela alegria irradiada em cada gesto, em cada riso, em cada olhar; pelo prazer de estarmos juntos.
22.08.2010 ---- Rilmar

sexta-feira, 6 de agosto de 2010

Um Lobisomem na Noite

Um lobisomem pode ter coisas a nos ensinar

Em noite chuvosa, barulhenta, tempestuosa eu ouvi por entre os estrondos dos trovões e o ruflar pesado da chuva forte, uns barulhos diferentes de tropeços e lamúria, como que vindo do meu quintal escuro e ensopado. Então, destramelei a porta da cozinha que se abriu por si mesma com a força do vento, o qual entrou forte, frio e molhado e, num instante, encharcou minha roupa e meus sapatos.

Meio encolhido, meio com medo e tentando enxergar aproveitando os clarões momentâneos dos relâmpagos, avancei cuidadoso pelo quintal.

Avançara já uns cem metros quando deparei com um vulto encolhido que grunhia e tremia entanguido de frio.

Era um pobre Lobisomem, marginalizado, enregelado e talvez doente!

Ali estava ele, lendário, concreto, real, carente e muito sofrido.Olhei-o, a princípio, transido de horror, mas, logo a seguir, ao perceber sua humílima atitude e a expressão humana de seu rosto; enchi-me de pena e num rompante de solidariedade arrisquei-me a convidá-lo com um gesto para que me seguisse.

Já em casa, atirei-lhe uma grossa toalha, cobertores, e ele se encolheu perto do fogo e logo adormeceu. Meio confuso, fechei por cuidado a porta que separava a cozinha do resto da casa e fui para o meu quarto. Já deitado, fiquei por longas horas pensando naquele pobre ser que na minha infância povoara, como outros, minha imaginação. E que era tão temível, tão poderoso, assustador e, agora, concreto como
eu ou a minha cama, ali estava acocorado no rabo do fogão encolhido trêmulo e cansado.

Que andariam fazendo os lobisomens, os currupiras e tantos outros seres que outrora, antes da bomba atômica, do Sky Lab, da poluição, da ameaça de falta de alimentos e de tantos terrores reais e modernos assustavam os homens e faziam as crianças rezarem e ficarem quietas para dormir?

Entre meditações, cochilos, sobressaltos e, por fim, sono profundo atravessei a noite. Na manhã seguinte despertei cheio de planos brilhantes para ajudar o lobisomem.

Paciente e submisso ele suportou cada procedimento, cada engano, cada sugestão minha e foi sendo remodelado gradativamente para adaptar-se ao mundo dos homens.

Tricotomia total, geral e irrestrita, extrações dentárias, plástica das orelhas etc.,etc.

Finalmente conseguiu-se desorrorizar a aparência do Lobisomem e dentro de um grosso macacão de brim, sapatos e luvas o liberei para que saísse pelas ruas e travasse contato com o povo.

Conseguimos ajeitar o mínimo indispensável de documentos, demos a ele um nome bem simples, bem simpático e o deixamos ir.
E lá se foi o João!

No fim do primeiro dia ele voltou e contou que não conseguira ser aceito nem em um grupo de vadios que se reunia em uma esquina. No segundo dia idem... No terceiro, no quarto, no quinto, tudo a mesma coisa!

Depois de quase um mês parece que as pessoas foram se acostumando com o seu jeitão e passaram a mexer com ele chamando-o de Corcunda de Notre Dame e, quando descobriram seu nome, imediatamente o apelidaram de João Garante; mas ele não se importou e até deu mostras de estar gostando. Muito forte, paciente, necessitado de amizade tudo isso foi fazendo com que os grupos de braçais o fossem acolhendo paulatinamente até que, finalmente, ele chegou em casa contando que havia conseguido emprego. Eu e mais um grupo de amigos empenhados na experiência, consideramos aquilo um enorme êxito e demos um hurra de puro entusiasmo.

E o Lobisomem com o nome de homem foi dormir muito contente.

Aceito no nosso mundo ele esteve sumido de nosso bairro um bocado de tempo. Tempo em que com força descomunal, dedicação, entusiasmo e esforço incansável enfrentou todo tipo de serviço disponível.

Em breve notou que do seu trabalho não advinha mais que mirrado sustento com sacrifício de quase totalidade de suas horas de vigília.

Entretanto pensou, com certeza estamos construindo uma sociedade tal que, após este período de sacrifícios, passaremos a gozar de tudo o que edificamos.

Com o tempo descobriu que o que lhe tocava era a penas aquele sustento.

Meditou muito... E ficou triste!

Meditou mais e teve raiva!

E tendo raiva gritou tentando despertar os homens com suas verdades!

Uns estranharam... Outros ouviram... Alguns apoiaram... Mas, ninguém tinha verdades para gritar e num marasmo homogêneo voltaram ao trabalho.

Como seu grito não teve repercussão, ninguém o incomodou e assim pôde continuar andando despercebido pelo nosso mundo. E observando... E meditando...

Viu guerras onde os homens despejavam o fogo que não se apaga sobre seus semelhantes e ao mesmo tempo pregavam a mansidão, abondade, a piedade.

Viu navios de refugiados perambulando pelos mares e a piedade cristã , budista, maometana etc, etc, não saber como acolhê-los.

Sentiu os nosso pavores, conviveu com nossas tristezas, partilhou de nossas alegrias, comeu em nossas mesas mais pobres e aspirou a fragrância das mais fartas, apiedou-se de nossa piedade, procurou vislumbrar os nossos horizontes e os notou obscuros.

E concluiu: _ O HOMEM É MUITO INFELIZ!

Talvez reste-lhe avançarpelo universo e em mundos novos tentar modelos novos de vida.
Sem poder contribuir para modificar nosso mundo, uma última vez nos procurou e mais sofrido do que na noite da chuva, fez um relato sucinto e nos comunicou que iria bstratificar-se e, em outra dimensão, continuaria sua vida, longe dos horrores desse mundo.

E, mudos de espanto, o vimos passar desta para outra dimensão,desaparecendo ali na nossa frente.


Anápolis, 25.11.79

sexta-feira, 30 de julho de 2010

CORA CORALINA, Aninha, Minerva, Poema

"Agosto,mais um aniversário do nascimento de Cora".

Quem é essa missionária que percorreu esses brasis?...
Que divindade é essa que perpassou os séculos?...
Quem é essa minerva que todos pararam para ouvir?...
Quem é a poetisa capaz de despertar emoções tão grandes em tantas gerações?...
Quem é essa bem amada de todas as camadas sociais?...
É Cora-Coralina, estela mor da poesia goiana.
A expressão mais bela e perfeita da arte do tempo. Sim, nela encontramos o resultado de pacientes e divinas pinceladas dadas uma hoje, outra amanhã, outra um mês, um ano, uma década depois. Arte que o tempo gerou em longuíssima gestação e não poupou meios, matéria, ambientes, nem emoções para a obtenção do sonhado fruto.
Assim, o tempo mesmo quis ser tintas, pincel e cinzel. Para forja, para estufa, para torno usou épocas, pessoas, labores, ambientes e a expôs às mais complexas e variadas emoções.
Ante a possibilidade de que as causas externas projetadas no amálgama incipiente que era ela tivessem efeitos imprevisíveis, o tempo pediu a Deus que a prouvesse de uma alma tal que, mesmo encarnada, transcendesse sempre aos sentimentos humanos. E essa transcendência fazia os sofreres mais sofridos, as dores mais doídas, a solidão mais solitária; intensificava as angústias, engrossava as lágrimas, tornava mais incontidos os soluços. Mas, a mesma transcendência a fazia ir lentamente captando ensinamentos nos fatos, nos erros, nas opressões, nos desprezos. A mesma transcendência a fazia entender, compreender, e, ao invés de acumular mágoas, ter desabrochado, no lugar de cada uma, um embrião de sensibilidade.
Não sei precisar se o tempo, na laboriosa faina de a compor, andou tendo dúvidas, ou se trabalhou sempre seguindo o mesmo plano.
O mais provável é que ela tenha influenciado o processo, condicionando o seu criador, o qual, diante de cada esboço concluído, iniciava o seguinte dentro da inspiração inicial, mas sofrendo naturais influências do que tinha diante de si. –“Não é o poeta que faz a poesia – E, sim, a poesia que condiciona o poeta”.
E pela vida afora o tempo a foi fazendo.
Deu-lhe têmpera no trabalho árduo, nas contradições, nas incompreensões, nos sofrimentos vários.
Burilou-a na escola primária da mestra inesquecível, no gosto pela leitura, nas convivências, nas tantas vivências.
Preparou-a. Aguçou-lhe a sensibilidade. Aprimorou-lhe as faculdades intelectuais...
Na atmosfera da Capital Velha, berço da cultura de Goiás, deixou-a exposta longos e importantes anos para que reunisse em si, os elementos que lhe facultassem extrair de outras vivências, das andanças, das viagens, das novas moradas; ensinamentos, beleza, poesia e também a capacitassem, a, em qualquer lugar ou circunstância, ser incansável e produtiva.
Como seu criador inspirava-se na Aninha de hoje para criar a Cora de amanhã, ela nunca atingiu o estágio final. Todo o dia o tempo a fazia uma nova Cora Coralina.
E, do burilar contínuo, dos retoques do pincel, do constante recriar é que tivemos a menina inzoneira, chorona, sabida demais; a moça bonita, metamorfose da menina feia; a doceira; a mulher decidida, trabalhadeira, criativa e finalmente, para que vislumbrássemos um pouco de seu incalculável conteúdo, para que a compreendêssemos mesmo sem sermos capazes de segui-la em seu constante aperfeiçoamento; a revelou na poesia.
E a poetisa surgiu com toda a força de um saber acumulado desde o século passado, com o prodígio de uma memória capaz de lembrar detalhes mínimos dos mais antigos fatos, de objetos já consumidos, de pessoas já há longos anos idas...
E a poetisa veio com um vocabulário tão belo, tão rico, tão elegante...
E a poetisa nos encanta com uma tão aguda sensibilidade frente à complexidade do contexto social, diante da simplicidade das pessoas simples, da natureza, dos objetos; encanta-nos enfim, pela bela, perfeita e sutilíssima visão que nos deu da vida.
Cora Coralina, amada das gentes, dos intelectuais, de todos quantos já a ouviram ou leram seu poemas.
Deusa que extravasou a sua sensibilidade, encantando os outros.
Musa que na beleza de sua figura de anciã seguia inspirando tantas expressões de afeto e admiração.
Que o tempo, seu criador, continue apaixonado pela obra que criou e siga a recriá-la sempre, todos os dias, para que outras gerações tenham também o privilégio de conhecê-la, pelos testemunhos, por sua obra de extrema beleza e sensibilidade, pelo seu saber e pelo exemplo de vida que deixou.
22.10.l983 -- Rilmar

sábado, 10 de julho de 2010

Lar. Último reduto

O último reduto, derradeiro bastião, trincheira pela qual se bate até que se exauram as últimas forças no intuito de preservá-lo, se não para si, para os que compõem essa molécula vital da sociedade, chamada família

Em seu lar cada indivíduo se abriga, se preserva.
No lar que é um espaço físico, social, psíquico; resguardam-se a família, os entes mais queridos, mais caros, mais importantes que o universo todo.
Preservem-no.
Não permitam que o invadam nem de forma abrupta e cruel, nem de forma lenta e dissimulada ou não, nem a nenhum pretexto.
O lar é um reduto da moral, dos usos, dos costumes, da religiosidade; de todas as experiências de vida que experimentamos, filtramos e queremos passar para nossos descendentes.
Quando de sua constituição, já houve uma interação entre os cônjuges, que se escolheram porque se aprovaram e querem, em comum, passar aos descendentes o bom e o sábio que têm dentro de si.
Nosso lar nos protege, mormente nos primeiros anos, de todas e quaisquer agressões que ameacem a integridade física, até mesmo um mínimo arranhão ou um toque ríspido. Protege-nos das doenças, das situações de risco a que a inocência ou a inexperiência nos expõem. Preserva-nos da maldade, da violência, da influência má ou equivocada. Guarda-nos, educa, ensina, mostra, prepara.
O lar não é uma coisa, um objeto que se possa dividir sem prejuízo da essência. Não tem botões de delere ou ajustes exatos. Nós dirigimos, formamos e até fazemos correções no todo do lar; mas há, como que um código diluído no todo que na medida em que vai sendo montado, resiste a correções, influencia o codificador, rebela-se, equivoca-se com informações contraditórias que não sabe filtrar.
Precisamos de um tempo de reservada convivência para conformar a moral, a ética, a filosofia de vida, as crenças e os mais básicos conhecimentos para a sobrevivência e capacidade de escolhas.
Precisamos de tempo para concretizar, fortalecer, aprimorar a estrutura física e mental.
De um tempo para robustecer fortemente os laços de amor entre os membros da família.
O lar não é propriedade de ninguém especificamente; é da família e pertence a todos os seus membros: pais e filhos. Seus guardiões naturais são os pais. Grande é seu compromisso. Enorme sua responsabilidade. Torna-se, no entanto, prazerosa e suave com presença do amor.
“Caso um missionário caísse no meio de uma aldeia primitiva, ainda que o comessem, a aldeia não seria mais a mesma. Pior ainda se o preservassem”
Nosso lar se assemelha! Na verdade deve e é necessária uma interação constante com a sociedade mas, o filtro principal são os pais que terão mais condição de passar suas essências, seus conteúdos de vida a seus filhos quanto mais limpas e ávidas estiverem suas mentes.
O contato, a integração com o mundo será cada vez maior e a nossa herança, nosso arsenal, nossa conformação física e psíquica farão com que separemos joio de trigo, soframos influências mas, façamos escolhas e também influenciemos para que o universo social nos acolha e seja agradável pára o todo e para cada um de nós.
Por melhor que seja o mundo, é bom que os filhos amem voltar ao lar de quando em vez e reviver momentos de convívio com suas raízes. Esses laços são naturais e se estabelecem no tempo em que se viveu no lar, em família.
Rilmar --03.07.2010

quinta-feira, 27 de maio de 2010

Terra, suor e milagre

(Histórias Possíveis)


Foi tão casual o achado meu naquele dia, quanto foi valioso e inesperado.

Um grande e cobiçado diamante! E era meu! Então o vendi para um homem que se dizia sócio de um banco.

Apurado o dinheiro dei-o a meu pai que, na verdade, foi quem o recebeu do homem e era, a meu ver, a pessoa mais sábia e honrada do mundo.
Meu pai, na sua imensa sabedoria, tratou de aplicar a fortuna de modo a dar renda e ocupação a toda família.
Comprou um trator novo e robusto, ágil e durável além de econômico.
Comprou terras planas e férteis a perder de vista.
Pensou, pensou e concluiu: - Vamos plantar mandioca. O risco é pequeno, o preço está ótimo, o custeio é baixo e dá pouco trabalho.
É notório o destemor dos Gomensauros (ancestrais pré-históricos dos Gomes atuais); por isso mesmo ficou decidido que plantaríamos um mandiocal tão grande que causasse espanto a todos os demais plantadores dali e de lugares distantes.
Tínhamos a terra, as ramas de mandioca, um ufanismo destemperado e sem tamanho e, sobretudo, tínhamos ainda uma boa quantia em dinheiro.
Cem alqueires de terra plana e fértil; uma infinidade de toletes de ramas de mandiocas; as mais variadas: mandioca pão, mandioca amarela, mandioca cacau, caipira de Minas, da Bahia, do Pará, mandioca brava e outras mais.
Depois de tudo arado, revolvido, corrigido, adubado; tocamos a plantar, plantar até que não houvesse mais três palmos quadrados de terra sem dois toquinhos de mandioca plantados.
Só a planura da terra com as eiras de covas cobertas já tinha muita beleza; mas quando choveu copiosamente e depois de alguns dias a brota ocorreu, foi que a vista se tornou maravilhosa mesmo.
A brota veio com força, vida, esplendor e cores que iam do verde de vários tons ao marrom avermelhado; e tudo virou um grande tapete que ia e ia se estendendo em direção ao horizonte até perder de vista. O vento ondulava e dava ainda mais vida àquele painel de proporções infinitas.
E tome trabalho, e luta, perseverança, obstinação incansável, capinas, combates às pragas; orações silenciosas pedindo chuva, sol e saúde.
Finalmente a lavoura estava no ponto, podíamos arrancar (colher), vender e apurar novamente dinheiro com o merecido lucro.
Aí eu resolvi abrir a boca e opinar...!
-Não gente!... Que bobagem é essa? Vamos industrializar o produto e lucrar muito mais!
Como?... Disse meu pai, o dinheiro acabou!
-Ora, a gente vende o trator e compra o maquinário que são os ralos, as mesas, as peneiras, os tanques, as ensecadeiras, etc; compra sacos para embalar, lonas para a secagem e grampos para fechar os sacos.
Expus minha idéia de tal maneira e pus tudo tão fácil que acabei por convencer meu pai e toda a família de que a idéia era boa e facilmente exeqüível.
E lá fomos nós produzir polvilho...
O tempo ajudou e fez muito sol com pouco vento. Trabalhamos como loucos. Ninguém de casa escapou. Moças, rapazes, velhos, meninos, universitários de férias, gatos e cachorros.
Arranca mandioca, lava na bica, carrega pro galpão, descasca, rala, molha, côa, deixa assentar o polvilho, esparrama para secar. Então o polvilho com a brancura da neve cobriu um campo quase tão extenso como era o mandiocal. Depois ensacamos, fechamos os sacos de uma quarta, empilhamos tudo em um depósito e fomos atrás de compradores.
- O preço tinha caído!, Ninguém queria comprar!...
- Ai meu Deus!... E agora?...
Doamos, distribuímos, consumimos e vender mesmo que era bom, quase nada.
A ruína já era quase certa. Foi então que um tio meu chegou com a notícia de que a farinha de mandioca era o produto do momento e que se vendêssemos a qualquer preço uns restos de nosso polvilho poderíamos construir fornos e torrar o rejeito de mandioca, que estava guardado, obtido na produção de polvilho e o transformarmos em farinha de mandioca de boa qualidade.
Quem está perdido não caça caminho! Não é mesmo?
Pois é, daí, vendemos as toneladas restantes do nosso polvilho e aplicamos tudo em peneiras, fornos, lenha e carvão e desandamos a fabricar farinha de mandioca.
Implantamos uma incontável quantidade de fornos em forma de iglus que ocuparam os vastos campos que à época do polvilho pareciam extensas planícies cobertas de neve.
A nuvem de fumaça, de complexa química, emanando dos fornos rumava direto para a camada de ozônio e quase duplicou o buraco além de reforçar o efeito estufa, tal era a quantidade de fumegantes fornos.
Os olhos se enchiam de lágrimas pelo ardido da fumaça e pela emoção de ver uma indústria produzindo.
Estaríamos salvos?
Ainda não.
Uma noite, depois que havíamos fabricado e estocado toda a farinha, uma grande chuva de trovões, ventos e granizos aconteceu com toda a fúria e arrancou telhas, e revirou tapumes, e invadiu galpões...
Molhou toda a farinha.
Bateu um enorme desânimo.
Desastre total?
Ainda não.
Não é que no dia seguinte, quando estávamos no maior desespero, no mais completo desânimo; o telefone tocou e atendendo eu ouvi:
- Como? - Se temos farinha? – Temos, mas está molhada, muito molhada. - Hein, vocês só se interessam por ela se estiver molhada? – Não acredito. – Mas para que serve farinha molhada?
- Para fazer pirão!
- Sim, dizia a voz, basta acrescentar cubinhos de caldo de carne e depois separar em porções, levar ao fogo e, a seguir congelar. Pirão de mistura repousada, quanto mais antiga melhor; a Europa compra tudo e a Bahia também... é pegar ou largar... Vocês vendem?
- É claro que vendemos.
Pagamos as dívidas e com a sobra vamos comprar um novo trator e aproveitar as ramas do antigo mandiocal para começar tudo de novo.
Rilmar José Gomes
28/07/2007

sábado, 1 de maio de 2010

À Minha Mãe

Rilmar

Nossa Senhora na beira do rio.
Lavava os paninhos de seu bento fio...

Eu bem quisera escrever em trovas, mas não as consigo criar dignas destas memórias...

E falo a você, Mãe, com a firme lembrança da sua imagem naquelas tardes ensolaradas quando você, que durante toda a semana lecionara o dia todo e parte da noite para alunos de ambos os sexos, de todas idades, das mais variadas classes sociais e de comportamentos os mais diversos e imprevisíveis; mas, que a sua paciência imensa, o seu amor ilimitado, a sua alegria que se espargia e contagiava a todos; envolviam, compreendiam, harmonizavam, disciplinavam e conseguiam conduzi-los paulatinamente em direção à luz do saber. Naquelas tardes ensolaradas você, inesgotável e bela, ainda tinha missões para o fim de semana.
Como a vejo nítida destacando-se nestas imagens que me vêm à mente. Seu português tão correto, sua letra de lindíssimo talhe, suas frases tão plenas de saber, de compreensão, de poesia, elegantes e delicadas. E as inesquecíveis lições de humildade que nos dava, indo, ao final da semana, alegremente até, levando-nos para o córrego como se fôssemos passear, quando, na verdade, você ia era lavar a imensa trouxa de roupas que as nove pessoas da casa usaram durante a semana.
E a lembrança me traz você como aquela Nossa Senhora da cantiga de ninar:
Nossa Senhora na beira do rio.
Lavava os paninhos do seu bento fio.
Ela lavava, José estendia.
O menino chorava com o frio que fazia...
Era você lavando, contando casos repletos de interesses para nós que deitados na água morna do pequeno regato mantínhamos os olhos e os ouvidos ligados nos seus gestos e em cada palavra sua no desenrolar da narrativa
Nítida e iluminada como uma santa, saudosa e amada como as mães podem ser, eis como minhas lembranças a retratam.
Fim de dia. Recolhidas as roupas e refeita a trouxa, lá ia você com a imensa mala de roupas e a fila de filhos a acompanhá-la de volta ao lar.
Mais que a professora, maior que a diretora, grande como uma luminosa divindade; tranqüila, afagando um ou outro, sorrindo no seu grandioso papel de Mãe!...
Maria como a mãe do menino Deus, bendita mulher que veio ao mundo para dar amor e espalhar luz e saber. Hei de sempre lembrá-la com seu amável sorriso a semear virtudes, tolerância e amor.
Muito obrigado minha mãe, minha amiga, meu fanal. Muito obrigado por ter deixado em mim essas lembranças que me envaidecem demais e me ensinam muito o respeito de humildade e altruísmo.
10-05-1979
Rilmar José Gomes

quinta-feira, 15 de abril de 2010

Terra!... A Mãe das Mães

Passarão os homens, a ambição, a inconsequência... A Terra, não.

Planeta Terra

No tempo dos voos das cosmonaves, a mente livre percorre as amplidões dos espaços siderais e perpassa satélites, planetas, poeiras cósmicas, pedregulhos meteoríticos, estrelas das mais variadas magnitudes e salta de sistema em sistema ganhando as mais longínquas e impensadas paragens das amplidões infinitas.

O homem pensa na posse de algo tão imenso que nem sequer imagina quão grande seja.

As mentes fervilham e trabalham.

A ciência se desenvolve e avança.

No tempo da comunicação impossível, das mensagens estelares, dos contatos com outras dimensões de existência apenas suspeitada; do envio de imagens através do vácuo desde os mais distantes planetas à Terra, e de tantas ondas enviadas aos espaços infinitos levando imagens e sons que, sabe Deus, talvez sejam captadas em lugares nunca por nós imaginados.




Na era do vasculhar das potencialidades das mentes até nos seus aspectos mais extra-sensoriais.

Você continua sendo a mãe extremosa, mãe de todas as mães e dos pais, e dos avós e de todos os ancestrais, enfim.

Você que protege sem desproteger, sem enfraquecer o forte ou debilitar o fraco. Que incansavelmente vem, há milênios, nos expondo à luz e ao calor do Sol ao fazer o dia e, ao saber-nos cansados, envolve-nos em sua imensa sombra para que repousemos, e faz a noite.



Você que por milhões de anos se preparou para nos conceber, mercê da vontade de Deus; e por outros tantos nos gestou com infinita paciência, aguardando um lentíssimo evoluir de moléculas, de vírus de bactérias e de uma cadeia imensa de complexidades sucessivas até chegar ao que somos.

Amada mãe que cede cada átomo, cada cristal, cada molécula para a estruturação de todos os seres. E, os protege para que sobrevivam, e os expõe à agruras e labores para que se robusteçam e ganhem têmpera; e lhes proporciona belezas, perfumes e sensibilidade para que, sendo fortes e rijos também saibam sentir os abstratos sublimes como a saudade, o amor, a fraternidade, a poesia; e que, quando a vida cessa e a alma ganha o infinito, reabsorve cada fragmento, cada grão e seleciona elemento por elemento recondicionando-os para que propiciem renascimentos e , como um todo universal, se eternizem.

Mapa mundi

No tempo das maravilhosas realizações dos homens...
Você, sábia como sei não há, por certo, de ficar impassível a tudo o que essas realizações maravilhosas vêm destruindo em você.
Paciente e sábia, eis a sua maior qualidade. Imagino que bem poderia inclinar a sua equatorial cintura de quarenta mil quilômetros e inverter a posição dos pólos com a mesma. Isso provocaria tanta cessação de vida, que a superpopulação, o alucinado progresso, o desenfreado e irracional consumo, tudo regrediria séculos ou milênios. Uma nova humanidade talvez então se conformasse mais evoluída, mais perfeita e mais digna de você.

Mas você é mãe!... E, as mães criam, sofrem se doam, se consomem e, muitas vezes sucumbem ante a ingratidão ou a insensibilidade dos filhos, porém nunca sequer lhes ocorre a palavra vingança.



E você fica impassível, ou por ser mãe, ou por entender que a humanidade apenas segue uma trajetória previamente traçada como parecem ser todas as trajetórias de tudo o que existe no Universo.

Não é mérito, nem culpa minha, se sendo rijo e forte sou sensível a ponto de dizer que mais que pela gravidade me prendo em você pelo amor e pela gratidão.


Rilmar - 1979

22 de abril - Dia da Terra

terça-feira, 30 de março de 2010

A Luz, A Cruz, Jesus

Réstia de luz
No horizonte;
Pende na cruz
Defronte;
Emana-lhe luz
Da fronte;
A luz, a cruz, Jesus
No monte!


Jesus na cruz no monte

Veio de longe para vê-lo. E prostrou-se diante da cruz em que Ele jazia dependurado. Quis erguer os olhos para embeber-se do seu semblante cheio de mansidão.
Mansidão que o homem não alcança, o filósofo vislumbra e o santo procura.
Inútil, não pôde!

Tudo ao redor emanava tristeza. Várias vezes tentou levantar o olhar em vão. Faltava-lhe coragem? Forças? Auto-domínio? Ou será talvez que se sentisse pequeno demais diante da magnificência do Cristo? Mas, o cordeiro de Deus na sua mansidão e humildade não poderia acaso ser contemplado de frente por um homem comum?

No ar e nas coisas pairava o tédio.
Pendente na cruz o filho de Deus.
Prostrado em frente um homem que andara muito. Que pernoitara muitas vezes ao relento. Que há muito não via os seus e que viera para vê-lo. A pouco e pouco foi vencendo a emoção e foi subindo vagarosamente o olhar. Viu seus pés descalços, feridos, edemaciados, riscados pelo sangue escorrido já ressecado. Depois olhou o corpo maltratado, as mãos feridas e por fim mirou-lhe a face. A face que deveria refletir a dor do escárnio, da traição, da ingratidão, da injustiça; a face que deveria estar contraída pela dor física; era calma. Irradiava compreensão, piedade até.

Pendia a cabeça de encontro ao peito como se Ele dormisse. Aflorava-lhe no semblante descontraído a impressão de que sonhava talvez com uma humanidade diferente, compreensiva, amorável, sincera, crente e desprendida.
Viera de longe suplicar-lhe cura. Mas, Ele jazia ali morto.
Não alcançando a cura física, sentiu que suas dores eram pequenas demais diante das dele.
Notou-se egoísta até.
Levantou-se.
Sentia-se leve. Descontraído.
Olhou mais uma vez para o Cristo e suplicou-lhe que o ajudasse no aprimoramento do íntimo. Para que a proximidade da morte e enchesse de esperanças. Para que a fé o enchesse de bondade durante a vida.

Virou-se e começou a afastar-se vagaroso. Olhou para a perna que uma úlcera comia e não conseguiu mais ficar triste. Deu alguns passos, desceu a perna da calça cobrindo a ferida e foi embora.
Andava lentamente, arrastando a perna inchada e ulcerada. A ferida era feia, antiga, profunda, cheirava mal e doía muito a cada passo. As pessoas o evitavam. A jornada pelo mundo parecia não ter fim.
Murmurava em prece, pleno de fé: Cordeiro de Deus, ainda que eu não mereça, derrama sobre mim e vossa paz. Alivia meu sofrer...
Num tempo de pouca medicina, de infindáveis caminhadas,sem afeto, vivendo da caridade, era grande súa pena.

A família

Tempos depois, anos talvez passados, percorria um estreito caminho que margeava uma cerca quando, parado à sua frente, viu o Cristo.
Tomé, talvez, não tenha visto um Cristo mais concreto e real.
Sentiu que estava diante de Jesus, não houve espanto, nem suplicou nada. Apenas o olhou e vendo que o Cristo sorria, sorriu também.
Depois se ajoelhou e pôs os olhos no chão. Nessa humílima atitude esteve imóvel por um tempo longo e emocionante..



Em certo momento, sentindo que Ele se fora, levantou-se.
O coração batia tão rápido e tão forte que parecia saltar do peito. Uma alegria esfuziante o arrebatava. Intrigado, desejoso de contar tudo a alguém, pôs-se a correr como um louco em direção ao povoado.
Deslocava-se velozmente, sem dores e sem se dar conta de que já podia correr.
Novembro de 1972.
Rilmar José Gomes

sábado, 30 de janeiro de 2010

Denúncia ao Público ou Miséria pouco é Bobagem

Notícias da DP – Inacreditável - Li com lágrimas nos olhos

Deu entrada ontem, nesta DP, o cidadão Mala Concebido, de origem desconhecida, provavelmente de algum livreto apócrifo; o qual foi flagrado e autuado por seis ou mais agentes de diferentes departamentos garantidores do bem estar social; a saber:
Delegacia das mulheres;
Departamento de defesa da criança;
Serviço de proteção aos animais;
Inspetoria da Saúde Pública;
Divisão especial de distribuição da renda familiar.
Os crime de que é acusado o referido meliante são todos graves e inafiançáveis e, as provas levantadas em seu próprio lar, ou melhor casa, ou melhor esconderijo, ou melhor tugúrio; são incontestáveis, e hediondas.
A mulher é mantida numa espécie de cativeiro. Magrela, pálida, descalça, sem dentes e com uns trapinhos finos a cobrir-lhe o corpo franzino e sofrido. Trabalha como uma moura seja na varrição da casa, na fazeção da comida que exige criatividade de gênio e milagres da multiplicação diários; ou na trabalheira que lhe dão os seis filhos chorões, catarrentos, lumbriguentos, teimosos, mal nutridos e distribuídos em faixas etárias que variam dos zero aos sete anos.
As crianças passam fome, choram, se coçam, levam safanões e tapas à todo momento. Ora diretamente do pai meliante, ora por culpa do mesmo que ao não prover satisfatoriamente a casa, propicia os fatores que levam as crianças a protestarem com choros e gritos nos ouvidos dos adultos irritados, com conseqüentes repreensões, ou seja, safanões, tapas e beliscões.
Complica-se a situação pela presença na casa de um pobre cão que, a despeito de proteger e vigiar a casa contra malfeitores e ladrões que iriam ali roubar, não sei o quê, é maltratado, come as sobras que nunca existem, apanha mais do que todos da casa e é obrigado a sair pelas ruas revirando latas e pacotes de lixo em busca de sustento para sua vida miserável de cachorro de pobre.
A inspetoria de Saúde Pública quis saber da situação dos sanitários e da destinação dos dejetos.
Pasmem-se leitores, mas o cidadão em pauta teve o deslavado desplante
de fingir que não entendia o que significavam essas coisas. Foi preciso esmiuçar, com muito constrangimento de parte da fiscalização, para que ele, por fim, admitisse que as águas de lavações, sejam de pia, tanque ou banho, saiam por um reguinho cruzando os quintais da vizinhança e iam poluir um corregozinho que passa a um certa distância da casa, de onde provém toda a água que abastece a casa e é buscada pela mulher em pesadas latas-d’água-na-cabeça. O sanitário propriamente dito é um buraco cercado por quatro paus e um plástico preto molambento, e, lá as pessoas se escondem para se esvaziarem quando necessitam.
Crápula é pouco para esse indivíduo!...
Nesse ponto o meliante quis se defender, dizendo que trabalha de oito a dez horas por dia para ganhar o salário mínimo e que o máximo que pode fazer com o minguado provento é a miséria detectada ali.
Nem bem acabara de falar, entrou em pauta o relatório da divisão especial da Distribuição da Renda Familiar. A referida divisão não só detectou in loco abundantes sinais de desvio de verba e aplicação indevida, como ainda se deu ao desvelo de rastrear cuidadosamente, desde à origem, a destinação dada aos proventos do nosso acusado.
É de estarrecer verificar que em uma nação tão rica em exemplos edificantes no trato com verbas e a coisa pública se venha, num certo momento, a deparar com o opróbrio de maneira tão descarada.
Inescrupuloso, sagaz, inconseqüente; eis alguns dos muitos adjetivos que nos ocorrem na análise dos atos sub-reptícios de quem pega um polpudo salário mínimo, do qual foram descontados apenas alguns vales, contribuição sindical e INSS; e, portanto hígido, robusto e plenipotente e o esfacela a seu bel prazer. De cara se detecta um gasto desnecessário com ônibus quando, morando apenas a cinco ou seis quilômetros do local de trabalho, poderia fazer o trajeto à pé ou mesmo pegar uma carona com algum vizinho; logo adiante descobre-se que o perdulário mantinha uma conta num boteco onde, duas ou três vezes por semana, parava para beber uma pinga dupla e comer um naco de lingüiça mista; seguindo o rastreamento vamos descobrir que, geralmente no sábado, o nosso malandro deliciava-se, horas a fio, jogando sinuquinha numa boca-de-inferno nas imediações de sua casa, e tome desvio de verba; para finalizar, ao analisar sua conta na farmácia, vamos verificar que constam: Sonrisal para tirar ressaca, desodorante para sua inhaca e inúmeras outras miudezas supérfluas.
Somados esses e outros desperdícios, fica perfeitamente explicada a miséria reinante na casa e caracterizada a culpa do réu.
Ao saber que estava condenado e depois de ouvir as argumentações dos vários relatórios, o réu reconheceu suas culpas e prometeu por fim à vida, tão logo seja libertado após o cumprimento das penas, e quis tão somente saber quem iria manter sua família no nível de miséria atual enquanto ele estiver na cadeia.
O agente policial não soube responder, mas deu-lhe uma tremenda bolacha para evitar novas perguntas.
E mais não disse e nem lhe foi perguntado
Do Correspondente especial

Rilmar – 16.8.91

quinta-feira, 28 de janeiro de 2010

Sobre Mario de Andrade (para minha Nora)

Olhe o que eu achei revirando um baú de papéis amarelados pelo tempo:

Se eu tivesse um irmão
E esse brother fosse Mário,
Aceitaria com bondade;
De Andrade

Fosse porém esse irmão,
Registrado de Andrade,
Antes do nome, ao contário;
Mário

De Andrade, Mário, poeta;
Imortal, com Deus compondo,
Sempre e sempre o seu canto;
Santo

Se não tivemos o convívio,
Como explicar o vazio,
Que deixou Mario de Andrade?...
Saudade

(poeminhas sem dono, da Lira sem Pátria)
Rilmar - 28.01.2010


Leia mais: São Paulo e Mário de Andrade http://blog.brasilacademico.com/2010/01/sao-paulo-e-mario-de-andrade.html#ixzz0duveJ85I

sábado, 16 de janeiro de 2010

MIMOSA - ONDE A VACA VAI O BOI VAI ATRÁS

Uma vaquinha mimosa,
Boa a não mais poder,
Pastava tranquilamente,
Deixando o tempo correr.

Bois e bezerros olhavam
A vaquinha, embevecidos,
Que tranqüila balançava
A cauda em dois sentidos.

Diz-lhe um bezerro afoito:
Quem me dera que agora
Fosse eu grande e bonito,
Para namorar com a senhora.

Ai meu Deus, como é bacana
Quando passa para o curral!
Pula o coração cá dentro
Tremo todo, sinto mal.

Ela, boa consciente,
Olha com certo desdém
Murmura, talvez, consigo:
Frangote, nem vem que não tem.

De certa feita um boi,
O galã da região,
Criou coragem e falou-lhe
Todo cheio de emoção

Dizia ele: –Vaquinha,
De quem esses olhos são?
- Estes olhos são daquele
Que me tem o coração.

- E essa boca bonita
Que morde, masca e rumina?
- Esta boca já pertence
Ao galã desta campina

- E o seu corpo malhado
Posso com ele sonhar?
- Se já tens meu coração,
A quem o corpo hei de dar?

O boi cheio de emoção
Para perto dela chegou;
Deu-lhe um cheiro temeroso,
Mas ela não se zangou.

Aí, bem mais animado,
Quis ela toda cheirar,
Cheira que cheira, ai meu Deus!
Caiu duro no lugar

Fica o boi ali caído
E a vaquinha novamente
Vai balançando o rabinho
Encantando a toda a gente.

Rilmar José Gomes (1969?)

sexta-feira, 1 de janeiro de 2010

Pôr-do-sol

Sol poente,
Por trás do monte escondendo,
Tingindo os vales de ouro
E o céu de púrpura.



Tarde calma,
Quieta tarde calada,
Silente, muda,
De brisa suave refrescando almas,
De gente fazendo nada,
Sentada nos montes sem preocupações

Que não seja viver e beber,
Num gole imenso, sorvendo
Aos poucos, devagar,
A natureza bela.

Tarde de aves cantando, Ao longe,
Quase imperceptivelmente;

Na amplidão dos vales,
Sem perturbar o silêncio,
Sem atrapalhar a brisa ,
Sem apressar o Sol.

Tarde ampla, acolhedora tarde,
Onde as famílias nas soleiras,
Nos vales, na serra;
Com pés descalços sentindo a terra,
Devaneando vão mentalmente,

Até Deus, devagar
Em prece sem pressa,
Que ele é eterno e,
Tarde tão linda,
Não compactua com a morte.

Tarde serena e calma tarde
Que traduz minha alma
Dentro dessa tarde.
Tranquila e distante como o horizonte,
Que só existe
Longe da gente.

Rilmar (1978?)