sábado, 26 de dezembro de 2009

Presente de Natal que eu daria a um Necessitado

À criança: lar, aconchego, folguedo, brinquedo.
Lar que guarda, protege, preserva, nutre e educa;
Aconchego que é ninho,
Folguedo que é euforia em movimento,
Brinquedo que enche a cabeça de imaginação, que é tesouro incrível,
dádiva, realização. Brinquedo que faz criança feliz.



Ao jovem: família, sonhos, fé no futuro, confiança em si mesmo,
oportunidades.
Família para apoiá-lo e vibrar com seus êxitos;
Sonhos para idealizar o amanhã;
Fé no futuro para não temer;
Confiança para buscar as soluções em si mesmo;
Oportunidades, para que os sonhos se realizem;



Ao maduro: paz no lar, segurança no emprego, reconhecimento,
consciência de sua grandeza, alegria no viver;
Paz no lar, para enfim se acalmar e degustar a vida;
Segurança no emprego; as oportunidades se escasseiam;
Reconhecimento; o maior alento para o espírito vem dele.
Consciência; - Foi grande a minha luta, eu alicercei as nossas vidas, sei disso;
Alegria; - Tudo vale a pena se estivermos alegres e de bem com a vida.



Ao velho:
Amparo, mas não prisão;
Sossego, não abandono;
Respeito afável; não distanciamento
Saúde para o corpo, alegria para a alma,
Brilho para a mente, esperança, ainda que vã, de vida longa;
(esses itens falam por si mesmos);



A todos:
Um planeta preservado para viver;
-Sem planeta não há vida...
Amor de amar e ser amado;
- Sem esse amor a vida perde o sentido

domingo, 20 de dezembro de 2009

Uma Rosa para Laura

(poemas que eu balbucio)


Queria te dar uma rosa

Linda e diáfana como

Imagino que imaginas.



Uma rosa graciosa e sutil,

De um rosa suave e maravilhoso,

Respingada de orvalho e

Das lágrimas que a noite chora..



Uma rosa iluminada por um

Forte clarão momentâneo,

Com um brilho difuso e nítido

Como a luz do vaga-lume

Em noite escura.



Uma rosa ideal e pura,

Bela e suavemente perfumada

Imantada de um encanto natural,

Que te inebriasse e prendesse.



Que te encantasse

Te fizesse sorrir extasiada

Te levasse às lágrimas,

Que, enfim, revelasse

As emoções mais secretas

De tua alma.



Que exteriorizasse

Através de teu amor,

A percepção da emoção

Contida na flor

Rilmar (1990)

terça-feira, 15 de dezembro de 2009

A Poesia e o Poeta


Poesia é uma forma,
Uma maneira , um jeito,
De expressarmos aos outros
Gritos contidos no peito

São as mágoas, os tormentos,
Júbilos, sorrisos, saudade,
Externados, de tal modo,
Que evoque reciprocidade.

Poesia é um momento
Em que o eu interior
Fala de alma para alma,
Com algum interlocutor.

Poesia é o amor.
Da desolação, do tédio,
Dos tantos males da vida,
É lenitivo é remédio.

A poesia e o poeta,
Têm relação bem estreita,
Ele se expõe, vivencia,
Ela aguarda, espreita.

Elaborada a vivência,
Tenta expressar o que sente;
Fiel ela se entrega,
Com seus versos mais ardentes

Então, dessa integração,
Desse pacto de amor,
Surgem jardins de emoções,
De paz, de enlevo e esplendor.

Os amantes se completam,
Um sente, a outra traduz;
Ele pensa que a cria,
Ela supõe que o conduz.

Rilmar.

domingo, 13 de dezembro de 2009

Pensamentos


Somados tudo o que sei mais o que penso que sei; é muito menos do que aquilo que eu não sei.
Somados os dois primeiros com o terceiro; é infinitamente menos do que o que eu ignoro.
O que eu ignoro é aquilo que eu nem sei que não sei.
Rilmar

segunda-feira, 7 de dezembro de 2009

Barrabaz o Cão Amigo



• Moleques de rua vinham, frequentemente, pulando o muro de meu quintal e praticando furtos. Diziam algumas pessoas que era porque tinham fome; que não o faziam por maldade; que se eu tivesse paciência, Deus me recompensaria.
• Se Deus aparecesse para mim, ao menos em sonho e me prometesse recompensa, vá lá!... Mas, vocês sabem como são essas coisas de Deus não é? Quem fala em nome d’Ele, certamente nunca o viu e nem verá. Até, porque há muito maior probabilidade de se ganhar na mega-sena sozinho do que se encontrar com Deus. Não que eu não creia; mas entre o crer, o merecer e o ver vai uma distância tão grande que é melhor a gente não se animar muito não.
• Sendo assim; eu a cada dia ficava mais puto com aqueles pivetes filhos –da- mãe.
• Roubavam de tudo!...
• Bicicleta, velocípede, galinhas, frutas, bujão de gás, roupas do arame, calçados que ficassem no quintal para secar e até torneiras e bomba de imersão na cisterna; deixando a casa sem água e causando o maior tumulto.
• Daí, resolvi por cacos de vidro sobre o muro e uma cerca elétrica dita como infalível.
• Realmente, a cerca era infalível. Com menos de uma semana que fora colocada; um grupinho de pivetes, os de sempre, duvidou de sua eficiência e tentou pular o muro.
• Foi bater- e –valer!
• Em plena madrugada fui acordado pelos vizinhos revoltados esbravejando em frente à minha casa, e pelas mães dos pivetes que faziam o maior escândalo gritando para que eu desligasse a cerca.
• Atarantado de sono, assustado, nervoso e com medo de ter matado alguém, peguei o controle remoto da cerca elétrica, cliquei desesperadamente apontando para a caixa do alarme e, depois de várias e angustiantes tentativas, consegui desligá-la.
• Cessou o alarme da cerca, mas a rua se encheu com o ruído do corpo de bombeiros, do SAMU e da polícia que chegaram quase juntos para prestar socorro, arrancar a cerca e me levar até à delegacia para lavrar o flagrante.
• Na delegacia o delegado me olhava com ódio enquanto fazia perguntas e anotava num livro grosso e antigo, dois policiais cochichavam entre si e me o apontavam com desprezo; um advogado esfregava as mãos olhando para mim com uma cara esperta e marota.
• Felizmente Deus, o inacessível, compareceu também, não deixando os moleques morrerem, acalmando a multidão e transformando o flagrante apenas em uma pesada fiança que paguei sem reclamar já que estava morto de medo das conseqüências.
• Conjecturei: - Tudo bem, fico sem a cerca, mas ninguém vai continuar me roubando!
• - E, onde é que ficam a polícia, o SAMU, os bombeiros e esse bando de vizinhos que não vêem esses capetinhas pulando meu muro e roubando minhas coisas?... De que lado eles estão?
• Pensei comigo mesmo:
• - Ah!... Não aceito. Vou é comprar um cão de guarda.
• Comprei!...
• Comprei um cachorro fila mestiço com buldogue e, para não ficar a vida inteira esperando o animal crescer, comprei um filhote já meio erado, de mais ou menos um ano e meio.
• De tão grande e tão zangado, lembrava o Barrabaz da Izabel Allende de Casa dos Espíritos. Depois de muita adulação, longas conversas e afagos arriscados, o cão foi lentamente nos aceitando e, finalmente, se tornou um de nós.
• Territoriais como são os cães, o nosso tratou de demarcar o terreiro com grandes esguichos de urina nos troncos das árvores, no pé do muro, nas pedras e até nos buracos de formigas do quintal.
• Depois disso vigiava o quintal noite e dia atacando violentamente qualquer coisa que tentasse pular o muro: gatos, gambás, ratos e, é claro, moleques encapetados e indesejáveis.
• Com o tempo e cachorro cresceu mais e ficou mais bravo ainda. Quando estava zangado punha-se de pé nas patas traseiras e mostrava a carranca ameaçadora por cima do muro, assustando os transeuntes.
• Não tardou muito e veio uma ordem judicial determinando que eu contivesse o animal, amordaçasse e colocasse placas avisando de sua periculosidade; ou abrandasse o seu gênio.
• Não tive dúvidas. A solução era abrandar o gênio.
• Após consultar vários entendidos, ficou estabelecido que castração seria a solução para o abrandamento do gênio do bicho.
• Castração não me parecia difícil. Digo da execução. Faca amolada, alguém distraindo o cão, coragem, destreza e decisão; já que anatomicamente não parecia haver dificuldade alguma. O que devia ser extirpado estava bem à mostra e bastante acessível. Duas bolotas acondicionadas em uma pequena bolsa pendurada bem na parte de trás do cachorro. Como se estivesse ali para se exibir.
• Preparei todo o meu material necessário para o ato médico: Uma tigela para receber a peça retirada, uma bacia com água limpa e morna conforme via nos filmes, compressas, sabão, álcool iodado, agulha e fio para sutura.
• Tomei um trago duplo de cachaça para aumentar a coragem e passei a amolar bem uma grande faca de churrasco.
• Amolava a faca pacientemente enquanto observava o cão que não tirava os olhos de mim. Ora me olhava com um olhar triste e incrédulo, ora com uns olhos arregalados de espanto.
• Parece que ele desconfiou da maçada não só por ver aquela faca grande ser amolada com tanto esmero, como também porque alguém o havia ludibriado dando-lhe um osso enquanto outra pessoa foi por trás e deu um banho de água morna na peça visada para o ato cirúrgico e em suas adjacências. Depois passaram uma solução de iodo chamada povidine e, em seguida, vestiram-lhe uma espécie de fralda com uma abertura própria para deixar de fora a bolsa com as duas glândulas.
• Desconfiado, ele se aproximou de mim e roçou seu corpanzil em meu joelho, primeiro o lado esquerdo, depois o direito, em seguida latiu duas ou três vezes como que querendo certificar-se de nossa amizade. Afastou-se então e foi postar-se a cerca de cinco ou seis metros de mim.
• Em certo momento o cão começou a choramingar num ganido triste e secular, a uivar baixinho num uivo longo como a se despedir da vida; sentou-se sobre os testículos, cruzou as pernas traseiras e adotou, ao mesmo tempo, uma expressão de quem implorava piedade, mas deixando bem claro que lutaria até a morte para defender sua macheza.
• Meu coração gostava daquele bicho.
• Sua expressão, seu lamento triste, sua lealdade, a solidariedade própria de nós os machos; essas coisas todas foram minando-me em minha decisão até que, por fim, guardei a faca, afaguei a cabeça de meu cachorro e desisti de castrá-lo.
• Ficamos ambos aliviados.
• Mandei fazer uma grade interna a mais ou menos um metro do muro, em toda sua extensão para manter o animal longe dele. Não amordacei o cão, mas deixei mordaças à disposição de quem as quisesse colocar nele e esparramei placas do lado externo do muro, avisando:
• - Cuidado... Hulk no quintal. Só ataca quando zangado. Só se zanga quando alguém pula o muro para dentro. Uma vez zangado fica enorme e agressivo. Ninguém consegue contê-lo.
• Nunca mais tive problemas com os pivetes, que não tendo como roubar e ter vida fácil devem ter procurado caminhos como estudo, disciplina, dedicação e trabalho e, por certo, arrumaram suas vidas e deixaram a minha em paz.
 Rilmar
• 26.4.2009

quarta-feira, 2 de dezembro de 2009

O Prego e o Martelo

O PREGO E O MARTELO
Um prego e um martelo jaziam lado a lado, a cerca de uns cem metros de uma hidrelétrica em construção.
Quase ao mesmo tempo, perceberam uma inscrição nítida e tosca numa parede e que dizia:
Quando Você for martelo, não se esqueça de que já foi prego!...

O Martelo leu, não disse nada e continuou em sua inércia. O prego, no entanto, deu a maior importância à mensagem e principiou a refletir na dura missão dele, prego, que implantado a duras marteladas bem aplicadas em sua cabeça penetraria, lenta e sofridamente, no madeiramento até desaparecer quase por completo, quando então ficaria sustentando toda uma armação pesadíssima de caibros e tábuas, no mais completo anonimato.
E, ai dele se apresentasse qualquer folga, por mínima que fosse, porque prontamente alguém perceberia e novas e contundentes marteladas o recolocariam no seu humilde e devido lugar.
Ah! Martelo, disse o Prego, depois de relatar seu pensamento; não queira nunca ser prego.
O Martelo refletiu por dois segundos e respondeu:
Meu amigo; não pense que eu já nasci martelo. Não meu caro, eu já fui minério como você foi, passei por uma fundição, fui um valoroso prego na construção da usina de Tucuruí; sustentei orgulhosamente as tábuas que escoraram trechos das barragens de cimento e aço; depois fui rejeito, quase lixo; fui colhido e levado para Brasília onde fixei tábuas de barracos de úteis candangos (pregos humanos); tempos depois, virei lixo mesmo e fui catado por catadores de lixo, selecionado e remetido a uma fundição de reciclagem, quando então, junto com outros pregos, virei uma massa amorfa e posteriormente tomei a forma atual de martelo.
Sou martelo mas sei que formamos um par na lida; par sumamente importante e indissolúvel pois todo trabalho é digno, toda função é importante e, nem um de nós atua ou é útil sem o outro.
De que vale o prego sem o martelo?... Qual é a utilidade do martelo sem o prego?
Assim também, nós, seres humanos, deveríamos sempre refletir na interdependência que existe entre nós e no quão importante é, que saibamos ver a importância de nosso próximo e a nossa própria sem exagerarmos ou desmerecermos uma ou outra sem razão.
A escada por onde se sobe é a mesma por onde se desce.
Rilmar J. Gomes

terça-feira, 1 de dezembro de 2009

Alma Vazia

Venha ver a minha alma,
Vem conhecê-la por dentro,
Penetra na minha mente,
Vem ler o meu pensamento.

Minha alma é muito triste,
Às vezes triste e vazia,
Tem a tristeza do triste,
Em noite de Nostalgia.

Meu coração, retrato fiel
Desta alma moribunda,
Pulsa em lúgubre compasso,
Tristonho sangue o inunda

Eu sou como alguém que morre
E no ermo mundo do além,
Escuta procura e busca;
Tenta ver, não vê ninguém.

Perdido em um mundo estranho,
Sozinho com o seu penar,
Senta-se em seu próprio túmulo,
E passa a noite a chorar.

É essa a alma que tenho
Absorta, tola, perdida;
Sempre a procura de algo
Muito longe dessa vida.

Busca a Deus a minha alma?
Busca a luz de um olhar?
Ou procura, simplesmente,
Um motivo para chorar?

Se alguma alegria tenho,,
Quando mais dela preciso,
É a que me vem de ti
E doas com teu sorriso

E de ver esse sorriso
Que eu julgava ser só teu,
Nas bocas angelicais
Dos filhos que Deus nos deu.

Rilmar (1970)

sábado, 14 de novembro de 2009

Foi Nesse Natal Antigo

Nesse dia eu quero amar e ser amado, compreender e ser compreendido, perdoar e ser perdoado...
Louvor
O Natal naquele ano que ainda guardo na memória, mas a história talvez não registre; ocorreu de forma tão ideal, que chego a duvidar de minha memória. Por outro lado, minha imaginação não conseguiria compor um quadro assim.
Era véspera de natal. A cidade se agitava com o povo comprando, indo, vindo, providenciando dinheiro, tomando empréstimos; angustiando-se uns, alegrando-se outros e, mais além, atrás dos balcões, a expectativa de grandes vendas.
Natal sem novidades. Mensagens de Boas Festas, telegramas insípidos. Indiferença entre os homens.
A partir de um dado instante que não sei precisar bem, mas posso garantir que era dia, talvez no pôr do Sol. Alguma coisa aconteceu!... Não, não foi um fenômeno instantâneo. Iniciou-se em dado momento, mas evoluiu, intensificou-se até expressar-se em sua plenitude. E isso levou algum tempo. Esse tempo foi o de um entardecer com o sol acima do horizonte, envolveu maravilhoso por de sol de verão com nuvens coloridas fulgurantes adornando a imensidã; até quando a estrela papa-ceia já brilhava intensamente no céu para enfeitar a noite que se iniciara.

Foi como se imensa e impalpável nuvem de sutil e benfazeja vibração, de repente, descesse e envolvesse os homens, os animais, as ruas, as casas, tudo.
Talvez, advinda de Deus, vagasse há milênios no espaço com a determinação de naquele dia, naquela noite, descer sobre um povo.
Aquele pedaço de mundo se transformou.
Os altíssimos caminharam para o povo; os marginalizados, os mais humildes, todas as camadas rumaram para uma mesma posição. E houve igualdade com respeito mútuo, tolerância, concessões.
A emanação divina, no seu envolvimento, libertou as mentes de todos aqueles sentimentos que infelicitam e dividem os homens. Puderam então o amor, a compreensão, a solidariedade e a alegria se expressar na plenitude de suas potencialidades.
E todos foram felizes nesse estado de alma.
Um carro parou, alguém desceu e amparou o velho trôpego que tentava galgar os degraus de uma escada; medicou uma que gemia sua dores, recolheu outro que jazia estirado à beira de um passeio e, seguiu semeando boas ações.
Na esquina adiante, dois que discutiam por causa de uma batida de carros, pararam em dado momento, olharam-se espantados, sorriram, trocaram um abraço e notaram que brigavam por pouco mais que nada.

Alguém bateu à minha porta pedindo comida. Eram cinco crianças maltrapilhas e sujas. Ao invés de incomodar-me o aspecto, encantaram-me as expressões das faces infantis. Convidadas para jantar, entraram, comeram com alegria e saiam agradecidas; então perguntamos pelos seus pais.
- Meu pai anda doente há muito tempo, não trabalha; minha mãe só faz serviços pesados e ganha muito pouco.
-Convidai-os também. Além de comerem podemos tentar ajudá-los de outras formas.
Depois daqueles vieram outros e nós os recebemos com alegria.
Quando os alimentos estavam prestes a se acabar, os vizinhos vieram e trouxeram mais comida, mais alegria, mais amor e dividiram conosco e com nossos convidados.
Os que davam e os que recebiam se tratavam com amizade, simpatia e igualdade.


Em tudo se percebia o toque divino.
A esperança renasceu nos homens.
Logo adiante, um mendigo repartiu seu pão. Um Cego permitiu que outro compartilhasse com ele seu ponto à porta de uma igreja.

E muitos chegavam para orar.
Mas ninguém orou antes de perdoar.
Inimigos de morte dialogaram, compreenderam-se, pediram desculpas, perdoaram, trocaram abraço fraterno e sincero.
E quanto ódio se desfez naquele dia.
Nos presídios houve arrependimentos, reconsideração, compreensão para com a sociedade. A sociedade fez-se presente libertando injustiçados, desfazendo enganos, humanizando presídios, adequando penas, conscientizando, dando oportunidades, reconciliando. Falando de uma justiça mais perfeita que a dos homens.


E quanta revolta morreu naquele dia.
O amor, a resignação, a bondade e a esperança saíram a visitar hospitais, asilos, orfanatos e percorreram também os lares.
A insegurança saiu dos homens e com ela a desconfiança. Ninguém foi avaro ao dar nem egoísta ao receber.
Reconciliados, felizes e cansados os homens foram dormir cedo. Os cultos ficaram para a manhã seguinte. Dormiam o sono dos justos e precisavam repousar.
Um ser celestial passou na madrugada e distribuiu bênçãos.
Feliz Natal!... Sem lágrimas, incompreensões, rancores, fome, temores.
E quanta paz nasceu naquela noite!...

Rilmar(1981)


(Brasil Acadêmico, Ipameri Raizes Culturais, Artigonal)

terça-feira, 3 de novembro de 2009

A Morte do Poeta - por Rilmar

Ontem morreu um poeta!...
De causa quase desconhecida.
Morreu após um momento de profunda reflexão.

Morreu, não de todo. Os olhos ainda se alongam em direção ao horizonte; as mãos finas e um tanto esquálidas ainda comprimem outras mãos sem, no entanto, transmitir qualquer sentimento. No peito um coração descompassado e isquêmico ainda se esforça para injetar vida num corpo sem alma.
Uma alma que de tanto se apertar dentro de um peito sofrido, de tanto curtir solidão, de tanta desesperança, de tanto olhar tristemente um torno de si; não se conteve: Recolheu-se num recôndito do interior do poeta e rompeu para sempre o seu compromisso com a vida.
Ali vai o poeta sem alma.
Perambula apenas, não passeia.
Embora milhões de reações metabólicas ainda aconteçam energizando seu corpo, não há mais uma alma que sinta, que viva e transmita sentimentos.
Ontem, um poeta desanimado e só, voluntariamente abriu mão da vida. Pensa, portanto existe, mas, não degusta, não sofre, nada sente. Tornou-se impermeável ao mundo.
Acicatado não move um só músculo; achincalhado não ouve; humilhado permanece incólume e com o mesmo porte sereno; ignorado, apenas segue usufruindo a condição de poder vagar despercebido .
Sem alma, sem sonho, sem ilusão; ainda assim: poeta.
Sem norte e sem horizonte vagueia, não no mundo; permeia o universo.
Ali vai o poeta que ontem morreu...
(1990)


Leia mais: A Morte do Poeta - por Rilmar

segunda-feira, 2 de novembro de 2009

Democracia nas Escolas Será Tão Bom Assim?

Por Rilmar J.Gomes
Têm acontecido tantas mudanças na nossa sociedade que, pelo sim pelo não, sinto-me instado a me manifestar e a convidar outras pessoas que se manifestem pois há que se discutir e tentar entender as conjunturas presentes.

Vou me atrever a comentar o tema escola embora como livre pensador e, não , como técnico no assunto.
Democracia na escola : Vejo como improdutiva, desautorizadora, desestabilizadora, deficiente nos critérios de escolha por qualidades técnicas e por competência em dirigir as escolas para seus objetivos precípuos de orientação, disciplina, qualidade de ensino, ordem, respeito, dignificação dos professores e conscientização dos alunos para necessidade de se enquadrarem num conjunto de normas que visam prepará-los como cidadãos, visam provê-los de conhecimentos que serão hauridos pelos ensinamentos dados pela escola, buscados nos livros e no exercício orientado e constante das tarefas planejadas e passadas a eles.
Torna-se demagógica, gera um desrespeito do aluno para com o mestre que nunca pode contrariar o aluno e fica refém da inconveniência de confrontar o discípulo e ter que se explicar ao diretor porque isto gera impopularidade. Impopularidade gera perda de votos na próxima eleição!...
O confronto advêm de situações corriqueira como não ter feito os deveres, ter copiado o trabalho de outro, não ter estudado para a prova, manter comportamentos inconvenientes em sala de aula ou no interior do colégio, ou mesmo ter atitudes inadequadas na rua usando o uniforme do colégio. O próprio trajeto entre a casa e o colégio e do colégio para casa pode, com algum ganho , em parte ser direito do colégio supervisioná-lo, para o que é preciso que haja uma hierarquia e instrumentos que dêem ao colégio e professores poderes de discipliná-lo.
Um diretor deve ser, a meu ver, nomeado pela competência, por notório saber, pela capacidade administrativa, pela capacitação específica para a atividade, por ter um ideal de levar a escola ao melhor desempenho possível de seus objetivos de ensino, educação, conscientização, socialização, descoberta das potencialidades de cada um e de respeito aos mestres e a cada membro da escola que no conjunto propicia o prepara do aluno.
As melhores cabeças de um povo deveriam, ao menos, ter porque pensar na escolha de serem professores. Condições mínimas seriam : respeito, status, remuneração, dignidade, condição de trabalho incluindo secretárias para as tarefas braçais como preenchimento de diários, extensos relatórios; programas de computadores facilitando os controles necessários, incentivo à reciclagem permanente, incentivo à dedicação exclusiva, mas com canal para aproveitamento de profissionais como engenheiros, médicos, agrônomos, químicos, economistas, administradores de empresas , etc.
Dentro de tudo isso eu acrescentaria a necessidade de conselhos internos, analisadores críticos do desempenho da escola e de seus membros.
Por setores e no conjunto.
Ao aluno com baixo rendimento deveria ser dado o direito de repetir o ano e, não, ser passado através de inócuos trabalhos, muitas vezes feitos por terceiros e galgado a uma nova série onde, pela falta de pré-requisitos nunca vai conseguir haurir conhecimentos e vai somando incapacidades a tudo que lhe é ensinado.
Acaba se tornando uma grande bola de neve coberta de um verniz que esconde tudo o que não sabe debaixo de um fingido e torturante saber que se vê obrigado a ostentar pela vida a fora , com prejuízo para si e para a sociedade. Repetir um ano com uma nova consciência é antes uma oportunidade, um direito, uma atitude inteligente, uma forma de se preparar adequadamente; do que uma desonra ou um castigo.
Pode perfeitamente ser uma opção, uma retomada de rumos.
Reparem que os colégios disciplinadores e de ensino forte, que ensinam a estudar, fazer exercícios, repousar, meditar, ser disciplinado, ter atitudes, cuidar dos uniformes, respeitar os colegas e mestres, ter autocontrole , etc . Têm uma procura tão grande que se vêem obrigados a estabelecer rígidas seleções para admitirem alunos.
Quem sabe; nessa busca de excelência possamos reestruturar a própria sociedade.
Discussão em aberto... Rilmar

Publicado em: Blog Brasil Acadêmico, Artigonal, Ipameri Raizes Culturais

sábado, 31 de outubro de 2009

Procura-se, Mais Morto do que vivo

Ajudem nessa busca.

Cidadão de estatura mediana; cor indefinida; aproximadamente moreno; meio preto, meio branco, meio índio; o qual costuma persignar-se antes de mergulhar de um barranco no rio; pede ajuda a Deus para as mínimas decisões; dorme agarrado às saias de Nossa Senhora; se benze duas a três vezes antes de se levantar.

Procura-se um cidadão comum que tenha tomado Panvermina para expulsar lombrigas, quando criança; que já tenha feito várias limpezas nos intestinos com óleo de Rícino; use pílulas de vida de quando em vez; cuide dos rins com pílulas de lússem; que trate suas azias com Magnésia Bisurada; resolva dor-de-barriga com Elixir Paregórico; espante espíritos e mau-olhado com arruda e guiné; que trate suas bronquites com açúcar queimado e casca de laranja.
Procura-se alguém que acredite piamente em Deus e nos Santos todos; se preocupe com as almas do purgatório e reze para elas na hora de dormir; que dê esmolas na porta da igreja para agradar a Deus; preste atenção à missa; seja capaz de rezar um terço contritamente;
Que evite lugares mal-assombrados e apresse o passo ao passar por cemitérios.
Procura-se um cidadão muito antigo, para quem o respeito é um fundamento de vida; a honra uma virtude que deve ser mantida, revigorada e polida continuamente; a amizade observe a honra e o respeito, mas se componha também de amor e tolerância.
Procura-se um ser digno, trabalhador, batalhador e que ache importante ter amigos e companheiros; que vibre com o êxito dos outros, reconheça suas fraquezas sem se sentir derrotado.
Procura-se um pacificador capaz de se calar; de tecer elogios; de rir e chorar; de dar o conselho oportuno; de não desagregar e de se esforçar para unir.
Procura-se alguém que ouviu falar de bomba Atômica como algo distante e abstrato; imagine a guerra como coisa inútil; que não sabe onde a pátria começa ou acaba; não entende direito porque é que o governo manda; que cumpre a lei casualmente porque seu código de conduta se encaixa nela.
Procura-se um cidadão com marca de vacina anti-varíola, com a boca amarga de quina, com um leve bafo de pinga, com fígado palpável e dolorido; talvez com disfagia; talvez com obstipação intestinal ; com história de ofidismo, contato com o barbeiro, picado de escorpião, lacraia e formiga Cabo-Verde.
Um cidadão que já rezou nas tempestades, se afligiu com as estiagens; já perdeu; já bamburrou; nasceu de parto domiciliar; acompanhou enterros chorando; já riu vendo um filho nascer; campeou inutilmente um animal sumido, ajudou parto de bezerro, curou bicheiras.
Procura-se um cidadão que perambulou nas ruas da cidade; estudou em cursos noturnos; andou na chuva sem ter dinheiro para o ônibus; comeu o pão que o diabo amassou, com a melhor boca do mundo e agradecido.
Um cidadão que enquanto sobrevivia venceu, entendeu, tomou consciência. Ainda que essa consciência seja só um desconfiar confuso; que o entendimento seja mínimo e que a vitória seja quase um nada.
Procura-se esse transeunte que contém a essência de um povo.
Rilmar José Gomes - 07/08/1991


Leia mais: Blogs:Brasil Acadêmico e Ipameri Raizes Culturais, Ipameri Vai Vém

domingo, 25 de outubro de 2009

Da Vida a Vida Vi - Dia do Médico

Sob esse título, que soa para mim como Davi, Davi, Davi; falo um pouco desse grande ipamerino que, assim como alguns outros, deveria ter um busto erigido em praça pública.


Talvez, Ipameri devesse ter uma praça dos grandes vultos e, nas escolas, um dia por ano, fosse dedicado todo o tempo de uma ou duas aulas para se falar nos grandes vultos ipamerinos.
Minha percepção do Dr. David Cosac, é a percepção do povo, do menino que eu era quando em 1947 foi eleito prefeito de Ipameri. Estava sendo eleito um jovem médico que fizera seu curso no Rio de Janeiro onde permanecera fazendo estágios e se especializando por mais dois anos.
Inteligentíssimo, entusiasmado, com uma grande capacidade de trabalho; esplêndida formação médica que aliada à inteligência, coragem, à capacidade de decisão e ao inconformismo com as limitações técnicas encontradas na cidade para o pleno exercício da prática médica em Ipameri; fez com se tornasse, a meu ver, o grande agente para mudanças e para o estabelecimento de condições que tornaram Ipameri um centro de referência e acolhimento para tratamento, do povo de Ipameri e de uma vasta região cujo raio talvez ultrapassasse duzentos quilômetros.
Em um tempo em que a saúde não era direito do povo, não existiam planos de saúde nem SUS ou qualquer outra via de acesso a um tratamento hospitalar para quem não podia pagar; a criação de um grande hospital, bem equipado, com equipe médica competente e com sentido de equipe; e, além disso, um Hospital que na origem já era uma Associação Benemérita, uma Hospital do povo e para o povo.
A pessoa que concebeu, liderou uma equipe de valorosos cidadãos, mobilizou o povo, peregrinou em busca de verbas, fez parte de todas as etapas do planejamento e da construção e, depois se dedicou de corpo e alma trabalhando como médico generalista cujo campo de atuação abrangia todas as áreas da medicina que iam desde a pediatria, passava pela cirurgia, ginecologia e obstetrícia, psiquiatria, trauma e ortopedia.
A pessoa que foi atrás de colegas usando sua imensa capacidade de convencimento para trazê-los para Ipameri; a pessoa que administrou o hospital cuidando para que tudo fosse bem feito, para que não faltassem material, remédios, lençóis, material de limpeza, instrumentos etc.
Essa pessoa não trabalhou sozinha. Aglutinou esforços. Liderou grandes inteligências, grandes capacidades. Catalizou idéias. Direcionou ações para a conclusão de um objetivo. Formou um corpo de auxiliares, para o que chegou a mandar enfermeira fazer capacitação no Rio de Janeiro.
Para que não houvesse nenhuma possibilidade de que aquela obra não fosse inteiramente de toda a comunidade; ele, toda a equipe, todo o grupo de idealizadores criaram-na como entidade benemérita: Associação de Amparo à Maternidade e à Infância de Ipameri.
Tive algumas oportunidades de conhecer esse homem um pouco mais de perto. Uma delas foi quando eu trabalhava na Tipografia Minerva e o jornal A Folha do Povo era impresso lá. Quase sempre ele ia lá comentar uma matéria ou a colocação de um clichê na matéria que ia ser publicada naquela semana e, assim, eu tinha oportunidade de ouvi-lo argumentar com grande clareza, brilhantismo e de modo às vezes combativo mas, no mais das vezes, alegre e camarada.
Depois, tive oportunidade de trabalhar por algum tempo na residência dele, onde eu auxiliava nos serviços gerais e tinha a função de buscar um galão de leite em uma chácara do Santinoni nas proximidades da cidade. Nessa época eu, certa vez, precisei de uma consulta médica e ele me atendeu com muita cortesia e eficiência. A residência dava fundos para o Hospital e ele, mal almoçava e já estava indo para o hospital. Era incansável.
Muitos anos depois, depois de muitas voltas do mundo e da vida, tive oportunidade de trabalhar com o agora meu colega David Cosac. Se eu já o admirava conhecendo-o de longe, quando trabalhamos juntos, pude testemunhar o idealista, o denodado, o desprendido, o grande colega que me acolheu, me orientou, confiou em mim, fez de tudo para manter uma equipe coesa no Hospital Maternidade de Jaraguá, que foi onde trabalhamos juntos. Quanto mais o conhecia , mais eu me reportava à Ipameri e entendia quem foi aquele grande médico e benfeitor que tinha opositores mas a cidade toda o via como um grande médico e a maioria da população o adorava.
Não vejo como não erigir um busto em praça pública para tão grande homem, tão notória figura humana.
Com você amigo, colega, ipamerino que me orgulha: Da Vida a Vida Vi.
Minha gratidão e admiração
Rilmar - 18.10.2009 –DIA DO MÉDICO

quarta-feira, 14 de outubro de 2009

Beijaria Emocionado as Mãos dos Mestres




Durante toda a minha vida venho conhecendo mestres e, certamente, muitos outros terão a bondade de me ensinar coisas e saberes pela vida a fora.

Beijaria emocionado hoje, as mãos de todos os meus professores e pediria perdão pelas minhas traquinagens, minhas insubordinações, pelas macaquices , pelas vezes que compareci sem ter feito os deveres de casa.
Beijaria com lágrimas nos olhos todos eles e todas elas. Agradeceria muito e, em troca, mostraria meus êxitos, minhas vitórias e diria: obrigado por terem conduzido, orientado, compelido a estudar; àquele adolescente inquieto, rebelde, inseguro, confuso diante da vida.
Obrigado mestres do G. E. Ipameri, hoje: Colégio Estadual Professor Eduardo Mancine.

. Obrigado funcionários da disciplina, da secretaria, porteiros, zeladores, obrigado a todos. Meu pai era bedel e sei que era peça importante, tenho orgulho dele.
Rememorando vou ao Grupo Escolar Estadual de Ipameri onde iniciei o primário e também tive mestres inesquecíveis, incluindo aí a minha mãe que era, ora Diretora, ora era professora além da mãe que fazia milagres, com o ganho irrisório que sempre acompanha os professores, ao manter, com meu pai, oito bocas de oito filhos que em casa a aguardavam.

Meu amor por minha mãe necessita de muitos capítulos para ser descrito.
Com tantas imagens habitando meu peito, todas de imensurável importância; para momentaneamente me ater a uma, terei que, aleatoriamente, pinçar no fundo da mente e tentar tirar uma experiência de vida, uma mestra que tenha também marcado muito; um símbolo: Da.Nazária...
A Escola Sant’Ana; Escola de Da. Nazária é um marco inusitado e inacreditável nos dias de hoje.
A mestra ali na frente, cabelos já ficando grisalhos, olhar firme, de pequena estatura, mas forte. Os olhos vasculhavam cada cantinho da sala a todo instante. A voz era calma e eficaz. O semblante envolvia e dominava a sala toda.
Na sala, alunos de primeiro, segundo, terceiro e quarto anos primários; masculinos e femininos.
Conversa nenhuma entre os alunos. Atenção ao quadro, aos livros ou à mestra.
Disciplina plena, pela capacidade da mestra que tudo via, exigindo respeito e dedicação.
Punições existiam, mas sem serem totalmente brandas, eram mais oportunas que severas.
Sobre a mesa da mestra: uma pedrinha arredonda e antiga que era um código para saber se tinha alguém na privadinha do fundo do quintal.
Pedrinha na mesa: sanitário livre. Pedrinha ausente: sanitário ocupado. Funcionava maravilhosamente. A privadinha tinha como porta uma cortina feita com saco de aniagem e, mesmo assim, nunca houve qualquer confusão.
Ninguém nunca se atreveu a sumir com a tal pedrinha ou levá-la para casa inadvertidamente.
A escola de Da. Nazária funcionava de modo surpreendente e maravilhoso.
Imaginem que lá eram matriculados, além dos alunos comuns, os ditos problemáticos de Ipameri e de toda uma vasta região e, lá, por receberem atenção, serem incentivados, aconselhados, exigidos, todos evoluíam positivamente. A sala era pequena para tanta gente; até porque havia sempre alguém pedindo mais uma vaga e, de uma forma ou de outra; sendo atendido. Como as aulas eram no período da tarde, o calor era muito embora amplas janelas iluminassem a sala e deixassem correr um ventinho de quando em vez. Calor, estômago cheio depois do almoço, livros, idade de menino; tudo dava um sono danado e levava a gente a querer sair um pouco da sala. Da. Nazária instituiu então um prêmio para quem fosse estudioso e confiável: permitia que tais alunos fossem estudar no quintal da escola, à sombra das árvores. Por esse prêmio, eu fazia qualquer coisa. Outro prêmio era poder sair antes do final das aulas. Após o recreio as turmas iam sendo chamadas para “dar a lição”. Série por série éramos chamados para formar um semicírculo em volta da mesa da professora e íamos respondendo a perguntas sobre os temas do dia (história, geografia, matemática, português). Quem se saísse bem era dispensado e podia ir para casa mais cedo. Esse prêmio também me encantava. Nós adorávamos Da. Nazária, a quem pedíamos bênção na entrada da sala de aula e a apoiávamos em tudo. Ai de quem a ofendesse. Era, para nós, como uma mãe da época, que cuidava, educava, orientava, exigia e, se fosse preciso, punia na medida. Estou certo de que a relação mestre-aluno era muito boa; hoje, embora mais moderna, percebo que anda carecendo de ajustes; muitos ajustes. Sua ligação com seus alunos era tal que, para citar um exemplo, certo dia eu estava na rua catando esterco para adubar a horta lá de casa e, nesse mesmo dia nós teríamos prova de matemática. Da. Nazária, passando por ali, me chamou e perguntou se eu não estava lembrado da prova e, ao saber que eu estava cumprindo ordens de meu pai, foi lá em casa, conversou um bom tempo com meu pai que era sistemático e inacessível, nisso eu estava de longe; em seguida meu pai me chamou e me mandou ir estudar. Foi tanta responsabilidade sobre meu ombro que naquela tarde eu tirei um dez e nunca mais esqueci aquele dia, nem da atitude dela
Permita mestra, onde você estiver que eu abrace e beije seus cabelos crespos, que possa deixar cair nas costas de suas mãos, ao beijá-las, duas lágrimas de saudade e manifeste esse apreço enorme, essa admiração e agradeça a Deus (lembra que a senhora nos ensinava tanto a amar Jesus?) por esse privilégio de ter sido seu aluno durante um tempo em que tive grandes avanços no meu aprendizado escolar e de vida.
Obrigado Mestres de todos os tempos!...
15 de outubro de 2009
Rilmar

Emocionante e verdadeira - Dia do professor

Acesse o Blog a partir de amanhã, dia 15 de outubro e dê uma chance para a emoção, lendo e texto -- Beijaria Emocionado as Mãos dos Mestres

segunda-feira, 12 de outubro de 2009

Grandes Ipamerinos

Meu respeito e Gratidão:
Da.Nazária (minha professora)
Dr David Cosac (amigo, colega, médico de minha família, ser extraordinário, benfeitor da cidade que merecia um busto em praça pública)
Da Maria Lemes Gomes (minha genitora, Mestra de incontáveis ipamerinos, Diretora do Grupo Escolar por várias vezes, educadora, mãe extremosa, cidadã exemplar);
Ozires Porto - (amigo, conselheiro, patrão na Tip. Minerva, Exemplo que em muitos aspectos segui, ser humano a quem muito devo);
(volto com mais vultos ipamerinos, em breve)
Postado por Rilmar às 03:27 0 comentários

Chapéuzinho Vermelho entrevista o Lobo

Chapeuzinho Vermelho Entrevista o Lobo

Muitos anos depois, Chapeuzinho Vermelho entrevista o lobo, já no fim da vida:
- Então Lobo, como foi mesmo essa história de você ter comido minha avó e, depois, descomido quando viu que ia morrer?...
- Bem, disse o Lupus resignado, na verdade, a história é longa e tem muitos atenuantes a meu favor.
- Foi numa época de grande fome, de carestia, de miséria total no mundo dos bichos.
- Eu era novo, sem juízo; magro a ponto de ter a barriga grudada na coluna. Literalmente grudada. Os nós da coluna lombar podiam ser contados na superfície da barriga, o que dava a nítida impressão da chamada barriga de tanquinho.
- Eu jovem, faminto , sem juízo, influenciado pelas lendas da mocidade. Sua avó lisa, com uma boa dose de juventude ainda, rosada, robusta e vivendo sozinha na borda da mata.
- Imagine só!...
- Só imagine, não invente.
- Em mim a fome; nela a solidão e os restos de juventude.
- Na verdade, foi sua avó que me seduziu; no bom sentido , é claro.
- Todas as tardes eu passava ali por perto da casa dela e me deparava com algum prato de comida na janela.
- Ora, há entre os lobos um preceito secular A caça deu sopa, pule já nela.
- Mas, eu não pulei não, fiz foi ir me aproximando, todo dia um pouco mais até que tivemos, finalmente, um primeiro contato. Tudo por iniciativa dela.
- Sua avó tinha pele alva, mãos atraentes e um cheiro bom para quem é lobo.
- A tarde morria lentamente. Eu também morria lentamente só que de fome. O jardim da porta da casa estava descuidado, mas tinha flores e era bonito.
- Sua avó, cheinha, cheirosa e procurando parecer bondosa sentou-se no limiar da porta da casa; mais para casebre do que para casa; e estalava os dedos, assim como quem chama cachorro.
- Eu não sou cachorro não, mas a fome, a minha própria solidão, a natureza predadora dos lobos, a inspiração e a desesperança que o fim do dia traz aos lobos, tudo me empurrava para uma atitude de submissão.
- Fui chegando de mansinho, humilde, de orelhas murchas, cauda rebatida quase entre as pernas, ganindo baixinho e aceitei um naco de torta de galinha que ela me ofereceu.
- Toma lobinho; ainda me lembro da doçura daquela voz; coma, não precisa ter medo da vovó. Não tem perigo, a vovó não vai comer você!
- Nessa de “a vovó não vai comer você”, fui me aproximando cada dia mais. Foi, lenta e paulatinamente, se estabelecendo um forte elo entre aquelas duas almas, uma boa a outra faminta; ambas solitárias.
- Cada dia eu vinha mais cedo beirar a casa em busca daquele contato, dos afagos carinhosos que ela me dava, da voz doce e suave e da comida fácil.
- Comecei a querer aquela bondosa criatura só para mim.
- Estava tão envolvido que, de certa feita, passei uma manhã inteira demarcando o terreno que cercava a casa. Lobo demarca as coisas com xixi, não é? Fui urinando calculadamente, pouquinho a pouquinho até contornar toda a área em torno da morada dela.
- Essa ninguém me toma, pensei eu, cá comigo. (sempre no bom sentido)
- Com o passar do tempo descobri que outros seres visitavam a casa: Uns caçadores barulhentos e de odor horrível; um casal que raramente aparecia e, você, uma menininha que vinha cantarolando distraída e trazia sempre uma cestinha com alguma comida cheirosa.
- A velhinha, que não era tão velha, continuava cada vez mais carinhosa; a comida sempre deliciosa; eu, deitando e rolando com os afagos que recebia.
- Aí, vendo aqueles outros seres freqüentando a casa, principalmente os caçadores fedorentos; uma onda de ciúmes me invadiu, me percorreu, me dominou.
- Sou lobo, mas não sou bobo.
- Um lobo tem sempre uma fera dentro de si.
- Arquitetei, então, um plano para ter aquela velhinha só para mim.
- Disfarcei o trieiro que a menina distraída costumeiramente percorria para que ela se perdesse. Isso a atrasou e a levou a inventar um diálogo comigo que na realidade nunca ocorreu. Juro que sou inocente.
- Raptei a conservada matrona que, ao não oferecer qualquer resistência, descaracterizou o rapto. Posso até dizer que ela simplesmente me acompanhou.
- Na verdade eu não comi sua avó. Não, eu nunca a conseguiria engolir inteira e não queria fazer isso. Apenas a raptei e escondi na mata.
- É claro, disse a repórter batendo na testa. Aqueles caçadores só podem ter inventado. Histórias de caçadores... E tanta gente, por tanto tempo acreditou.
Continuando, voltou a perguntar:
- Por que você me enganou fingindo que era minha avó e, ao final, me atacou fazendo-me correr apavorada em busca dos caçadores?
O lobo continuou respondendo:
- Eu queria ganhar tempo. Entre os lobos há um grande respeito por filhotes. Minha intenção básica era ganhar sua confiança e tentar explicar tudo. Não sou bom ator. É 'deznecessário' dizer que não sou 'o melhor do mundo', foi uma idéia 'insana' que tomou conta de mim. Ciúme de lobo é fogo.
- Uma vez descoberto você,então uma menininha, correu assustada e eu corri atrás tentando me explicar, daí os caçadores apareceram e me capturaram.
- Longe de você, aqueles brutamontes me submeteram a angustiantes torturas (anote aí para a campanha de Tortura Nunca Mais): Me açoitaram, pinçaram minha língua, comprimiram meus testículos, torceram minha cauda,tais e tantas fizeram que eu acabei confessando, esse e muitos outros crimes que eles iam me sugerindo e eu só acenava que sim com a cabeça.
- Levei-os ao esconderijo e, de lá, não sei se contra a vontade dela; trouxeram, sua avó limpinha, seca e cheirosa e inventaram essa história de que a tiraram de minha barriga.
- Tem cabimento uma história dessas? Eu sequer tenho barriga!
- É melhor você acreditar na minha história.
Chapeuzinho concordou anuindo com um gesto e expressando simpatia com uma expressão facial.
Em tempo: - Dê notícias minha à sua avó. Diga que peço desculpas; estou sempre por aqui; nunca a esqueci. Concluiu o lobo já se afastando em direção a uma grande área desmatada.
Em 04.10.2009
Rilmar
(Blog – Ipameri Vai Vem e Brasil Acadêmico)